O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, também conhecido como TDAH, é uma "doença" da moda: Está na boca do povo, no vocabulário dos professores, no temor das mães, e nas buscas do Google para os filhos. O que começou como uma "doença" que aterrorizava os pais, hoje tem se tornado até objeto de ostentação, pois ter a facilidade de dizer "meu filho tem TDAH" é uma excelente justificativa para as atitudes frenéticas das crianças e adolescentes deste século. O tratamento, de igual maneira, está na ponta da língua de quem fez uma rápida pesquisa: Um comprimido do Metilfenidato (vulga Ritalina) ao dia e pronto, criança medicada, família feliz.

Mas o que estou querendo dizer com isto? Que o TDAH não existe? Não! Não tenho formação adequada em pesquisa para dizer que o TDAH não existe, mas tenho formação plena para dizer que este é um dos assuntos mais controversos ao se tratar de psicopatologia. Outra coisa que eu posso dizer é que, dentro das polêmicas que rodeiam o TDAH, as maiores estão relacionadas à sua causa, o que afeta consideravelmente o seu tratamento (geralmente causas diferentes exigem tratamentos diferentes).

A nossa psicologia brasileira, historicamente dependente das psicologias de tradição norte-americana (Bock, 2011), tende a uma explicação biomédica, neuropsicológica e funcionalista da causa do problema, situando-a como uma doença e apelando para o consenso psiquiátrico e de psicólogos de orientação objetivista. Basta observar o site da Associação Brasileira do Déficit de Atenção para conferir esta tendência.

A outra postura, por sua vez, tem sido evidenciada inclusive na internet nos últimos dias, sendo a que afirma que a causa do TDAH é baseada em um contexto social desorganizado. Um excelente e simples texto que defende esta postura trata sobre a diferença dos aspectos culturais no contexto da criação dos filhos e de suas consequências para o seu comportamento - este texto está intitulado "Porque as crianças francesas não tem Déficit de Atenção?" de autoria da Doutora Marilyn Wedge, e mostra como os franceses tratam diferentemente as suas crianças, estabelecendo limites claros para eles. O texto original está em inglês e pode ser conferido neste link.

Lembro-me de um caso muito recente que atendi na ala de Psiquiatria Infantil de um movimentado hospital público de Goiânia, em uma equipe multidisciplinar, onde a criança de uma cidade do interior do Estado (com cerca de 40 mil habitantes) veio até mim com o diagnóstico prévio de TDAH. Ao receber um paciente com o diagnóstico de outro profissional, nunca o recebo e aceito imediatamente com o rótulo trazido, mas verifico com meus próprios métodos a validade do diagnóstico, confirmando-o ou não, de modo que, acreditando que se a intervenção será realizada por mim, o diagnóstico igualmente deve ser feito por mim. Após ler o prontuário da criança, a história de seu quadro clínico, entrevistá-las e observá-la em um processo de ludodiagnóstico, me encontrei na necessidade de falar com a sua mãe para investigar o seu contexto familiar: O que me surpreendeu foi ao colocar ambos na mesma sala e entrevistá-los em conjunto, de modo com que o conteúdo trazido me fez entender que o relacionamento familiar era o maior problema em si. O TDAH era apenas um sintoma, e não uma doença: Era sintoma de uma vida familiar desregrada, com confusões de papéis, com a comunicação fragilizada e sem regras e limites bem estabelecidos por parte dos pais. Este é apenas um dos casos que pode exemplificar.

Muitas vezes, comportamentos desatentos e/ou hiperativos podem ser tratados como TDAH por um diagnóstico precipitado: Geralmente professores rotulam alguns estudantes desta maneira por sua inaptidão para tratar com comportamentos dissonantes em classe, transferindo a responsabilidade para a família ou para o psicólogo tratar de sua doença. Os próprios pais ou até mesmo profissionais às vezes se precipitam para dar diagnósticos de TDAH de modo a aliviarem-se da sua própria ansiedade de não saberem lidar com os problemas do contexto da criança.

Cito alguns exemplos que podem ser facilmente confundidos com TDAH: A criança está passando por um processo doloroso de separação judicial de seus pais, pode começar a desenvolver comportamentos de desatenção como forma de isolar parte de sua percepção das potenciais situações problemáticas que a cerca; A criança possui algum tipo de retardo mental leve que pode ser mal interpretado como TDAH; Crianças superdotadas intelectualmente (ou Portadoras de Altas Habilidades) que não possuem estimulação adequada podem desenvolver comportamentos de "não comprometimento", que podem ser confundidos com desatenção e etc.

Lembro-me de ter ouvido de uma colega psicóloga uma vez, em uma das sessões de supervisão clínica em que participávamos uma frase sua: "Acredito que não era o meu paciente com TDAH que precisava de remédios, mas eu que precisava que ele estivesse com remédios para que eu pudesse atendê-lo melhor". Essa frase foi dita por uma profissional excelente, com um brilhante trabalho realizado, mas que confessava sua dificuldade e evidencia as que, de maneira geral, nós profissionais de psicologia, os médicos, a família e sociedade em geral possuem para lidar com dinâmicas de comportamento diferentes.

Por isso o próprio Conselho Federal de Psicologia (2013) lançou um material de apoio e orientação à categoria, de modo a protestar contra a tendência à medicalização da vida e da educação, se posicionando a favor de uma postura mais compreensiva destes fatores contextuais. Outro dado que reforça esta postura é uma matéria veiculada no seguinte site em inglês, onde supostamente o criador do termo TDAH admite que esta doença é uma criação fictícia.

No fim o que quero dizer com este texto, é que por mais que o TDAH tenha recebido uma atenção naturalista, este é mais um fenômeno histórico-cultural que tem origem em uma sociedade pós-moderna apressada, carente de comunicação e limites, e onde tratar qualquer desordem emocional, social ou individual é feita através da administração de drogas farmacêuticas: Todos os casos em que percebi com TDAH tinham algum problema familiar subjacente, de modo que este "transtorno"" é o sintoma que se manifestou de que algo está errado naquele meio. Muitas vezes as crianças apenas manifestam os sintomas de relacionamentos que estão adoecidos ao seu redor.

Por isso, quando recebo uma criança com a queixa dos pais ou professores de que o mesmo tem transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, eu me pergunto: "De quem é o déficit de atenção?", do filho que não se concentra, ou dos pais que não lhe prestam atenção?

Referências

Bock, A. M. B. (2011). A psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em Psicologia. Em, Bock, A. M. B., Gonçalves, M. G. M. & Furtado, O. (Orgs). Psicologia sócio-Histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. São Paulo: Cortez.

Conselho Federal de Psicologia (2013). Subsídios para a campanha: Não à medicalização da vida, medicalização da educação. Disponível no dia 21 de Maio de 2014 no site http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/Caderno_AF.pdf

Autor do Artigo:Colunista Murillo