O Projeto "Justiça Educativa de Famílias" (Peres, 2013) é uma inovação na Psicologia Brasileira: Esta prática pioneira em solo nacional tem sido realizada mais especificamente no Estado de Goiás, em parceria da PUC Goiás e do Tribunal de Justiça do mesmo estado.

O projeto se propõe a ser um espaço de reflexão para famílias em situação de litígio pela guarda dos filhos, e é fruto do projeto de um projeto de pesquisa internacional sobre o tema (Peres, 2014).

O projeto se propõe a ser um espaço de reflexão sobre esta situação comum da atualidade, e que tem sobrecarregado as varas de famílias no país.

Participantes

Pessoas em processo litigioso pela guarda dos filhos, derivadas ao projeto pelo Tribunal de Justiça de Goiás.

Ambiente

O projeto é realizado em uma sala ampla com cadeiras dispostas em círculos.

Instrumentos e Teoria de Base

O instrumento levado para o trabalho é nada mais nada menos que o próprio pesquisador, dotado de sua singularidade. A Teoria da Subjetividade, de González Rey (1997, 2005, 2007, 2011), que propõe outra alternativa ao pensamento psicológico do século XXI, é a base deste projeto.

Procedimentos

É realizado um encontro semanal com grupos de famílias (várias famílias em um grupo), com duração média de 2 horas. São propostos entre 5 e 6 encontros, mas esta quantidade é livre e pode variar conforme as necessidades do grupo. Neste espaço as famílias são instigadas a compartilharem e refletirem sobre as situações litigiosas em que estão vivendo de modo a gerarem novos sentidos subjetivos às suas experiências (González Rey, 2005).

Discussão

O que há de novo com este projeto que o diferencia das demais práticas em psicologia? Primeiramente porque este se apoia em uma epistemologia qualitativa (González Rey, 1997, Peres, 2013) e desafia os marcos teóricos da Psicologia, Justiça e Educação.

Em segundo lugar, o projeto centra-se na EDUCAÇÃO DE FAMÍLIAS para a justiça, tirando o enfoque da justiça como "punitiva" e propondo o conceito de uma justiça que educa, não que intervém. As famílias são desafiadas a retomarem o protagonismo do processo de litígio e tentarem encontrar novas maneiras de se expressarem durante este processo.

Por isso, o terceiro ponto é que, o processo NÃO ENFOCA A MEDIAÇÃO NEM A CONCILIAÇÃO. Ele entende que o conflito é um momento positivo para a criação de novos sentidos subjetivos, e que ele é capaz de "tirar a pessoa do seu lugar". Logo no projeto, durante os encontros, é permitido que os conflitos que existam entre os casais surjam, e na medida em que isto acontece, o psicólogo instiga o grupo a reflexões sobre o ocorrido, de forma que sempre há movimento entre as pessoas. Estes conflitos sempre trazem elementos novos para o grupo, de modo que estes podem compartilhar muito mais do que informações, mas emoções em um processo educativo.

O objetivo do projeto é auxiliar as pessoas a resgatarem a capacidade que as mesmas possuem de serem sujeitas de suas próprias vidas, de modo a não transferirem as responsabilidades de seus processos para outros (ex-cônjuge, advogados, juízes, etc), assumindo-as e liberando-se de situações conflituosas.

O projeto que ainda está em suas primeiras etapas, já tem apresentado resultados interessantes, que podem ser acessados na publicação de Peres (2013).

Referências

González Rey, F. L. (1997). Epistemología cualitativa y subjetividad. São Paulo: EDUC.

González Rey, F. L. (2005). Sujeito e Subjetividade: uma aproximação histórico-cultural (R. S. L. Guzzo, Trad.). São Paulo: Pioneira Thomson Learning.

González Rey, F. L. (2007). Psicoterapia, subjetividade e pós-modernidade: uma aproximação histórico-cultural (G. M. Gumucio, Trad.). São Paulo: Thomson Learning.

González Rey, F. L. (2011). Subjetividade e saúde: superando a clínica da patologia. São Paulo: Cortez.

Peres, V. L. A. (2013). Justiça educativa de famílias. Fragmentos de Cultura, 23(4), 415-424.

Peres, V. L. A. (2014). Produções subjetivas de em litígio famílias pela guarda dos filhos. Em, M. J. F. Viana, C. T. Lemos & V. L. A. Peres, Famílias brasileiras em situação de conflitividade. Goiânia: Editora da PUC Goiás.

Fonte: Colunista Murillo Rodrigues