O tema da responsabilidade social na Psicologia existe há décadas na discussão acadêmica nacional. Este assunto que foi particularmente impulsionado por estudiosos da linha da psicologia social brasileira como Lane e Codo (1988) e Bock, Gonçalves e Furtado (1999), tendo sido tema reincidente em suas obras. Suas reflexões são voltadas para questões como "à quem serve a psicologia?", levantando críticas históricas ao envolvimento de nossa ciência com as ditaduras e elites privilegiadas social e economicamente.

Em toda a história da psicologia, esta sempre esteve atrelada à iniciativa privada: Primeiramente às universidades, depois às clínicas, aonde as pessoas iam para "tratarem-se" em psicoterapias que aos poucos foram se convertendo em material de ostentação de posses e status econômico. Algum tempo depois a psicologia serviu à indústria e ao comércio, com as práticas "avançadas" de recrutamento e seleção, ao lema fordista do "homem certo no lugar certo".

Aos poucos a Psicologia se transformou numa ferramenta biomédica com práticas claramente mecanicistas que se solidificaram sobre a coisificação da "técnica": Os estudantes das universidades ficaram cada vez mais interessados em técnicas avançadas de manipulação de comportamentos, no uso de jalecos e laboratórios ou nas experiências de estágios que poderiam obter nas clínicas-escolas ou em práticas de Recursos Humanos Empresariais – e a discussão e o pensamento crítico foram se afastando da vida universitária, dando espaço para uma psicologia cada vez mais "distanciada" da realidade vivida por um Brasil ainda subdesenvolvido e em processo de modernização tardia e industrialização.

Em algum momento, há 60 anos, a Psicologia nos EUA serviu ao governo daquele país com práticas experimentais: Skinner, o pai da Psicologia Comportamental foi um dos pioneiros no estudo de tecnologia de mísseis ao desenvolver o Projeto Orcon (Organic Control), com a ideia de condicionar pombos para guiarem mísseis para determinados alvos de guerra. Ora, isto foi genial! Claro que sim, Skinner mostrou na prática a amplitude do Condicionamento Operante e como este poderia ser utilizado para diversos fins. Felizmente este projeto não foi para frente por cortes no orçamento, mas este projeto poderia ter sido um divisor de águas no uso da psicologia para a guerra.

Longe de entrar em fatores éticos de determinados experimentos, a Psicologia Norte-Americana sempre esteve a frente de experimentos em Psicologia Social para extrair qualquer coisa de positiva para o governo em temas de aperfeiçoamento policial e militar. Isso se expressou até mesmo nas artes, através de séries televisivas como "Lie to Me" ao mostrar o tema das micro-expressões comportamentais a serviço da "lei e da ordem".

Todavia, mais ao sul, especificamente em El Salvador, uma pequena e conturbada república Centro-Americana, eclodia o trabalho do padre jesuíta Ignácio Martin Baró, com a Psicologia da Libertação, criticando a opressão dos agentes do governo sobre os pobres daquela região – Este foi assassinado pelo governo local, com ajuda de agentes da CIA (EUA), sob a acusação de ser uma pessoa nociva à ordem social vigente. Isto ocorria entre as décadas de 1960 e 1970, em que psicólogos e cientistas sociais latinoamericanos, lutavam por maior liberdade em seus países, como Sílvia Lane (BRA), González Rey (CUB), Maritza Monteiro (VEM), Fals Borba (COL), dentre outros.

Depois do desmantelamento da maior parte das ditaduras latino-americanas, como a Brasileira com João Figueiredo, a das juntas militares argentinas, a de Augusto Pinochet, no Chile, dentre outras, a psicologia latino-americana teve mais espaço para interagir entre si e propor conhecimentos que são tipicamente nossos: A psicologia social comunitária, como uma prática crítica, é uma invenção nossa, latina, diferentemente da norte-americana que era focada em práticas assistencialistas. A Psicologia Política tem sido tema de diferentes congressos no Brasil e fora destes, como no Chile por exemplo. Estas psicologias têm focado com bastante sucesso em questões sociais pontuais.

Todavia, ainda pode-se apontar para uma possibilidade da psicologia: O foco nas Políticas Públicas, de modo a contribuir para a Educação, Saúde, Justiça e Assistência Social. Um dos exemplos mais atuais, do qual participo, é o projeto Justiça Educativa de Famílias (Peres, 2013), que traz a ideia de reorientação da justiça como punitiva e determinista, para um foco de educação. Ora, este é um dos inúmeros exemplos de como a psicologia, com seus conhecimentos pode servir à democracia, na medida em que seus estudos são voltados para o fortalecimento das instituições e políticas públicas, privilegiando a sociedade como um todo, e não somente grupos específicos.

Referências

Bock. A. M. B., Gonçalves, M. G. M. & Furtado, O. (1999). A psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. São Paulo: Cortez.

Lane, S. & Codo, W. (1988). A psicologia social: O homem em movimento. Brasília: Brasiliense.

Peres, V. L. A. (2013). Justiça Educativa de Famílias. Fragmentos de cultura, 23(4). P. 415-424.

Fonte: Colunista Murillo Rodrigues