Quem tem acompanhado os noticiários nacionais nos últimos dias sabe que a cidade de Goiânia, capital do Estado de Goiás, está passando por um delicado momento na Segurança Pública: Mais de uma dezena de mulheres foram assassinadas por um (ou uns) misterioso(s) motociclista(s). O que acontece é que, o estanho modo de agir do(s) assassino(s) e a semelhança entre os crimes aventou a suspeita de que se trata de uma mesma pessoa, e que estaríamos nos deparando com um Serial Killer (Matador em Série).

Houve uma comoção geral na cidade depois do último assassinato, de uma inocente garota de 14 anos, que foi morta em uma parada de ônibus, por um homem de capacete preto, em uma moto preta. O caso tem mobilizado dezenas de investigadores, inclusive de outros países para que o criminoso seja encontrado.

Mas este texto não trata de fatos policiais, e sim psicológicos, e o objetivo destas palavras é levantar uma reflexão sobre a situação psíquica instalada na cidade: Nesta mesma semana, presenciei uma cena que expressa o "terror psicológico" causado na população – uma mulher saía do seu trabalho, por volta das seis horas da tarde, e andava olhando para trás, parando a cada três passos e parecia esgueirar-se por entre as frestas dos muros; Achei a cena inusitada, mas percebi que a mesma estava com muito medo de alguma coisa, ao chegar perto dela, escutei-a falando para mim "estou morrendo de medo, cada moto que passa o coração acelera". E por muitos dias presenciei relatos de mulheres na internet e no dia a dia, falando sobre a questão e relatando morrer de medo da situação.

Fiquei impressionado com a cena do terror daquela mulher na rua, parecia uma pessoa com síndrome do pânico, ou alguém que em pleno delírio sofria de um ataque paranoico, mas não, ela era uma pessoa normal. Isto me fez pensar duas coisas: 1) Como é triste a condição de uma pessoa que vive sob a apreensão do pânico; sim, estas pessoas que deliram, ou que possuem surtos paranoicos, expressando a irracionalidade dos sentimentos não tratados dentro de si. 2) Também pude pensar em como nós podemos produzir nossos próprios "surtos paranoicos", e em como são estigmatizadas as pessoas que não conseguem comunicar com razão os seus.

No fim das contas o que quero dizer é que: Muitas vezes os sentimentos que carregamos dentro de nós podem ou não ter uma base racional, e que, quando não conseguimos comunicar as "contingências que controlam os nossos comportamentos" (Sim, em linguagem bem behaviorista) parecemos nos enquadrar no grupo dos "malucos" ou o nome que se dê. Sentimentos são também produzidos por nossa realidade exterior, mas não são diretamente controlados por esta, pois cada um os significa de uma maneira diferente.

Isto me leva à última reflexão: Como é difícil comunicar racionalmente o que sentimos. Às vezes isso nos dá a falsa sensação de que sentimentos e razão são dissociados, mas o fato é que, um está perpassando o outro em todo o tempo. Precisamos é, cada vez mais, prestar atenção aos nossos sentimentos, para nos conhecermos mais e tornarmo-nos harmônicos. Conhecer bem os nossos medos, por exemplo, é uma das melhores maneiras de lidarmos com as situações que deles emanam. Neste sentido, também podemos saber que, o medo pode ter ou não uma base racional, e que a maneira como nos portamos diante dele é que determina o nosso sucesso diante de nossas calamidades.

Conhecer os nossos medos não significa que teremos que devemos atacá-lo, mas saber a diferença da maneira em que se deve agir em cada situação: Às vezes é mais prudente correr de um mal do que enfrentá-lo, ou às vezes não.

O medo é uma estrutura psicológica que nos foi moldada pela evolução da espécie para nos alertar de perigos eminentes. Todavia, nossa mente é "enganosa" e muitas vezes este perigo pode ser real ou ilusório. O que acontece é que, muito tempo depois de sairmos da caverna e termos criado uma série de aparatos para garantir a nossa e a segurança pública, o medo passou a ser cada dia mais "deixado de lado", e na medida em que este agente ancestral de nossa constituição humana emerge diante de nossas faces, nos sentimos imóveis diante de tal contraditória novidade.

O que o motociclista assassino me ensinou sobre o medo, no final das contas, é que, por mais fortes que possamos nos fazer, sempre seremos frágeis, e teremos que aprender a lidar com tamanha contradição.

Fonte: Colunista Murillo Rodrigues

Sobre o autor:

Murillo Rodrigues, 22 anos, psicólogo pela PUC Goiás (Brasil), com período sanduíche na Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento em Políticas Públicas pela Brown University (Estados Unidos) e Fundación Botín (Espanha). Possui extensão universitária em Políticas Sustentáveis pelo Centro Universitário de Goiás "UniAnhanguera" (Brasil) e certificação em Business pela Escola de Administração de Empresas do Estado de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (Brasil). Atualmente preside a Rede Goiana de Psicologia e é Gerente de Recursos Humanos na Área Comercial.