Psicologia e Eleições: O que é o voto de consonância?

É muito comum no período eleitoral serem divulgadas pesquisas sobre o desempenho dos candidatos e sobre as preferências de voto: Inúmeros institutos de pesquisas são contratados por jornais e até mesmo por partidos políticos para apurar as intenções de voto dos candidatos. Mas o interessante é que, muitas vezes, distintas pesquisas indicam diferentes números, o que pode ou não representar um problema.

O que acontece é que estas pesquisas são realizadas por amostragem: Um instituto de pesquisa delimita uma área geográfica (cidade, estado ou país) e partindo daí, elege o tamanho da população desta área para calcular uma boa amostragem. Esta amostragem é a porção de pessoas desta população que será consultada. A cidade de São Paulo, por exemplo, possui 16 milhões de habitantes (população), e destes será consultado um número de 3 mil eleitores (amostragem), pois é inviável realizar uma pesquisa com toda uma população (isto tornaria a pesquisa um censo). O que acontece é que, quanto maior for a amostragem, mais fidedigna será a pesquisa.

Mas existem maneiras de se burlar os resultados de uma pesquisa? SIM! Pode acontece o que chamamos de pesquisa de "curral", onde os pesquisadores são direcionados para áreas específicas da cidade ou do estado onde se sabe de antemão da preferência de certo candidato: O CANDIDATO "A", por exemplo, possui forte apelo às camadas sociais mais pobres da cidade e tem todo um discurso para este grupo, ao passo que o CANDIDATO "B" possui um foco na classe média alta e classe alta. Neste sentido, basta enviar uma equipe de pesquisadores para um bairro "pobre" para entrevistar 200 famílias, e outra equipe para um bairro mais rico para entrevistar 20 famílias. Este é só um exemplo bem simplório, mas a lógica por trás da "pesquisa de curral" funciona assim.

Mas porque alguém faria uma pesquisa tendenciosa para candidato A ou B? Simples, pelo fenômeno que podemos denominar de "VOTO DE CONSONÂNCIA": É comum que existam muitas pessoas indecisas ou apáticas em relação às eleições e que votem pelo candidato melhor posicionado. Muitas vezes também pode se escutar: "Vou votar no candidato "A" que é para não perder o meu voto" – isso porque muitas pessoas, sem consciência ou educação política votam pela simples necessidade de "ganhar" algo eleitoralmente, por mais distante que seja.

Também é muito comum o voto de consonância da oposição: A pessoa tem apreço pelo candidato "C", mas prefere votar no "B" que está em segundo lugar porque não gosta do candidato "A" e não quer que ele ganhe, preferindo votar em um candidato que não apoia por convicção, para aumentar suas chances de derrotar o oponente "odiado".

Este fenômeno que chamo de "VOTO DE CONSONÂNCIA" é simplesmente a expressão mais técnica e mais moderna de um velho dito popular: O "Maria-vai-com-as-outras", tão cantado pelas crianças, e tão materializado na vida real. Parece ser uma grande bobagem, mas uma pesquisa bem "direcionada" para os objetivos de partido A ou B, pode definir os rumos da eleição, simplesmente pelo fato de captar a volatilidade dos grupos de indecisos.

Por isso, aqui fica uma das reflexões da psicologia para a política: Devemos ter o compromisso ético, enquanto cientistas sociais, de não nos deixarmos vender para sugestionar a população em prol de interesses políticos particulares. As pesquisas políticas foram criadas para fortalecer a democracia e não para aparelhá-la, e nós como psicólogos, devemos ser agentes sociais com o compromisso com a liberdade e o fortalecimento da autonomia e educação política de nossos pares.

Fonte: Colunista Murillo Rodrigues