A questão da psicopatologia é uma das mais polêmicas da psicologia na pós-modernidade: Quanto mais o homem vive e desenvolve ferramentas para facilitar a sua vida, mais complicado vai se tornando e mais se emaranha em configurações subjetivas que são criadas para atender as suas próprias demandas. O ser humano vai se tornando algo semelhante a uma fábrica: Produz para si diversas configurações para dar conta de gerenciar os novos modelos de vida que adota.

Quem acompanha os "avanços" do DSM V pode ver que em comparação com os anteriores, a cada dia que passa são "criadas" novas doenças, ou rótulos psicossociais, para dar conta das igualmente novas maneiras que o ser humano encontra para se expressar. Desta maneira, é impossível pensar as configurações subjetivas humanas, sejam elas patológicas ou não, dissociadas dos movimentos da sociedade e da cultura.

As ditas "doenças mentais" acompanham o movimento de modernização do homem: As psicopatologias da Idade Média são totalmente diferentes das Psicopatologias da "Era Vitoriana" em que Freud desenvolveu a sua teoria, que ainda assim são muito diferentes das psicopatologias que afloraram com o desenvolvimento do capitalismo e que agora, ainda se aprimoram com as revoluções digitais que ocorrem – hoje mesmo já se fala em "WhatsAppIte" (certos de que isso não é uma categoria do DSM, mas ilustra o caos da vida atual) e em toda uma classe de "doenças digitais".

Então, o que podemos falar da Fobia Social? Uma "doença de gente que tem medo de gente"... Que coisa estranha!! Mas é simples se olharmos para a sociedade que estamos produzindo, e que ao mesmo tempo, dialeticamente nos produz: Vivemos um mundo que estimula a competição e desestimula o fracasso, que prega a concorrência e que viver sobre a sombra do medo e da ansiedade (e esta última que parece ser, ao lado da depressão, o "boom" do século – como fruto da aceleração da vida cotidiana). Neste sentido, não há como não lembrar do humanismo na psicologia, quando este diz que o que o homem, no ápice de suas necessidades, quer e necessita de aceitação social.

Todavia a sociedade que estamos produzindo não é uma sociedade para a aceitação: É uma sociedade que segrega o diferente, que apregoa a competição, nem que para isto tenha-se que diminuir os outros. Neste sentido, o cerne da "Fobia Social" encontra-se na incapacidade que uma pessoa possui de lidar positivamente com julgamentos, encerrando-se em sua insegurança e fechando-se para o mundo ao redor, pois se torna mais econômico fechar-se em comportamentos e sentimentos construídos para "alertar o seu dono" que algo está errado, do que atacar o mal que o aflige. As reações corporais que acompanham este sentimento, nada mais são do que a maneira em que a pessoa encontrou de comunicar os sentimentos represados que possui – sendo assim, acreditar que, na medida em que a pessoa vai apropriando-se da consciência de sua dificuldade e aprende novas maneiras para comunicar-se, o corpo também apropria-se da consciência de que possui melhor maneira para expressar-se contra o julgamento social que o oprime.

Fonte: Colunista Murillo Rodrigues