Ao ouvir treinadores e atletas partilhar os seus pensamentos após as competições, parece haver uma aceitação crescente de que o domínio psicológico desempenha um papel central na qualidade do desempenho.

Há uma abundância de frases comumente usadas que as pessoas empregam ao atribuir o fracasso do seu desempenho em competição, incluindo: "São os últimos centímetros que contam", "Simplesmente não estivemos em campo", "Jogamos com medo", "As nossas mentes estavam em outro lugar", "Não aguentamos a pressão". Este tipo de comentários são indicativos de uma crença individual ou coletiva de que a preparação psicológica, foco e capacidade de gerenciar a excitação e os níveis de ansiedade em momentos chave, influenciam fortemente a qualidade do desempenho esportivo. No entanto, os fatos dizem-nos que a maioria dos atletas e treinadores não dedicam deliberadamente tempo e esforços à prática destas habilidades psicológicas.

Porque razão existe tanta relutância em abordar as questões psicológicos para potenciar o desempenho, ou dedicar tempo para desenvolver habilidades mentais vantajosas para a competição? Existem vários fatores muito determinantes para a não inclusão destas práticas para a melhoria da performance dos atletas. Passo a apresentar:

A CRENÇA DE QUE AS HABILIDADES PSICOLÓGICAS NÃO PODEM SER ENSINADAS (OU NÃO PRECISAM SER ENSINADAS)

Enquanto algumas pessoas se apegam à crença de que os atletas de elite já nascem com tudo, ou que foram providos com um poder superior, a grande maioria subscreve a crença de que os atletas de elite (embora talvez tenham tido a sorte de herdar bons genes) têm, na realidade, que trabalhar duro, e necessitam de apoio e orientação para alcançar o topo. Isso normalmente obtém-se em resultado do trabalho consciente de uma metodologia de treino ou filosofia particular, e uma dedicação bastante significativa para o desenvolvimento de habilidades mentais robustas que permitirão que os atletas atinjam a performance desejada.

É claro que alguns atletas têm, naturalmente, uma confiança inabalável, proporcionando a autoconfiança que lhes permite bons resultados sob imensa pressão, mas, infelizmente, esta é a exceção, não a regra. A maioria dos atletas que evoluem para a excelência esportiva conseguem fazê-lo em resultado de compromisso coletivo (atleta e treinador) para o desenvolvimento dos elementos físicos e mentais que promovem o bom desempenho.

ABORDAGEM CORRETIVA

Como mencionado acima, o reconhecimento da psicologia do esporte está se tornando cada vez mais prevalente, no entanto, muitas pessoas ainda olham apenas como uma abordagem corretiva. Considerando as questões de ordem psicológica apenas quando surgem dificuldades, problemas ou inconsistência no rendimento. Embora levar em consideração a psicologia do esporte pelo lado da resolução de problemas ser melhor que nada, porque não tomar uma posição mais ativa e de desenvolvimento, abrangendo a prática de habilidades psicológicas para ganhar uma vantagem sobre a concorrência, bem como o trabalho no sentido de prevenir o aparecimento de problemas?

Para utilizar uma analogia muito primitiva, nós geralmente incentivamos atletas a beber antes de sentir sede. Além disso, como com a desidratação, uma vez que os problemas surjam, eles podem ser bastante difíceis de resolver. Então lembre-se, a prevenção é sempre mais fácil do que a correção.

TEMPO E RECURSOS LIMITADOS

Uma das justificativas mais comuns para não implementar as habilidades psicológicas na prática regular é o tempo limitado (seja percebida ou real) que os treinadores têm com seus atletas. Este é, por vezes, no entanto desconcertante, devido à convicção de que "naturalmente" o atleta estará psicologicamente preparado para ser bem sucedido. O objetivo deste artigo não é para sugerir que as habilidades psicológicas são mais importantes do que as habilidades físicas, mas é irrealista pensar que só porque um atleta pode executar uma certa habilidade num ambiente de baixa pressão (ambiente de treino), que irá naturalmente transferir as habilidades psicológicas que são necessárias para lhe permitir realizar o mesmo nível de performance sob pressão.

Importa refletir sobre a abordagem que regularmente é utilizada em treino e avaliar as oportunidades que se está dando aos atletas para a prática de experimentar (ou preparar) situações semelhantes às que irão encontrar em competição. Também merece a atenção dos treinadores e agentes esportivos, analisarem quais as competências que os seus atletas estão a desenvolver para responder à pressão, contratempos, falhas, adversidade, uma vez que tudo isto é inevitável no esporte competitivo.

NÃO SABER COMO, E QUANDO, ENSINAR HABILIDADES PSICOLÓGICAS

Outro fator que contribui para uma certa relutância em ensinar habilidades mentais é uma falta de familiaridade de como lidar com as habilidades Psicológicas. Os treinadores costumam usar instruções como "ficar positivo" ou "você precisa se concentrar", que muitas vezes são reconhecidos com um olhar confuso no rosto do atleta. Se um atleta acaba de fazer alguns erros, como se faz para ficar positivo? Certamente não é dizer-lhe para pensar positivo, muito mais tem de ser previamente construído e trabalhado para que o atleta acione um conjunto de processos psicofisiológicos para se colocar no seu melhor estado de recursos.

Na minha prática profissional sou regularmente abordado por treinadores que perguntam como as habilidades psicológicas devem ser trabalhadas, uma vez por semana, uma vez por quinzena ou no início da época esportiva? A resposta para isso é, todos os dias. As habilidades psicológicas devem fazer parte da prática cotidiana.

O desenvolvimento de estratégias eficazes para lidar com a pressão, manter o foco, evitar distrações, e executar as técnicas eficazmente sob estresse requer prática sistemática e deliberada, assim como as habilidades físicas. É importante notar, no entanto, que isso não significa que o atleta precisa parar o treino, e sentar-se um período de tempo para falar sobre os seus sentimentos, nada disso. Pode significar que antes de um determinado exercício, o atleta seja instruído para se concentrar exclusivamente no movimento do braço, e em seguida, pedir-lhe para refletir sobre o que sentiu. Ao fornecer esta instrução, e em seguida uma pergunta de follow-up, ajuda-se o atleta a focalizar um elemento controlável (que deve ajudar na aquisição de competências e evitar pensar no resultado), bem como a promoção do pensamento reflexivo, aumentando ainda a ligação sensitiva.

A psicologia do esporte continua a ganhar impulso, predominantemente, como resultado de atletas de alto rendimento, atribuírem grande parte do seu sucesso a uma congregação de habilidades físicas e psicológicas. Acredito que em breve será dado a mesma relevância que é dado à nutrição, força, condicionamento físico e biomecânica. Tenho vindo a constatar uma maior utilização das diferentes habilidades e estratégias mentais que podem melhorar o desempenho e o bem-estar no desporto de competição, acreditando que a psicologia do esporte vai tornar-se um campo de grande investimento para a maioria dos treinadores e atletas, abordando esta área como uma parte crítica de preparação e desempenho.

Fonte: Escola Psicologia