Afinal, o que Hortência e Isabel fazem no TUF?

Após vários emails e telefonemas recebidos e na condição de presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte – nos 22 anos de pesquisas científicas, intervenções e publicações na área, venho a público explicar e esclarecer o papel desempenhado pelas ex-atletas Hortência e Isabel no programa TUF, da Rede Globo.

O Brasil ainda é um país que apresenta resistências e preconceitos socioculturais diante das demandas psicológicas, mentais e motivacionais. Não raro, presenciamos profissionais de diversas áreas desempenhando o papel de motivadores, animadores culturais, "psicólogos" e agentes da alma. No esporte esse quadro é ainda mais agudo por conta do reforço da mídia – o que, sem dúvida, aprimora e reforça a visão de treinamento psicológico que habita o senso comum – cada vez mais comum.

A Globo e as próprias protagonistas do programa, Isabel e Hortência, reforçam o papel de "consultoras psicológicas" e "motivadoras". Para os que insistem em não compreender o papel do psicólogo do esporte, esse tipo de informação apenas reforça a tendência da banalização das demandas mentais de atletas e da população em geral. Os problemas são concebidos e trabalhados como num toque de mágica, numa gincana, dinâmica de grupo ou bate papo informal dos atletas com as consultoras técnicas/motivacionais.

Diante dessa constatação, o conceito de Psicologia do Esporte e todas suas formulações científicas ficam suspensos num perigoso segundo ou terceiro plano. Até porque, o próprio mecanismo motivacional necessita ser encarado com seriedade, estudo, pesquisa, contextualização, análise e constatações de acordo com as demandas individuais e coletivas do grupo de atletas, no caso do esporte – e de funcionários, no caso de empresas e instituições dos mais variados segmentos.

A distorção entre ciência e senso comum é antiga. Na Seleção Brasileira de futebol, profissionais de várias áreas (policiais, administradores de empresas, economistas e até humoristas)já proferiram palestras motivacionais sem, ao menos, ter o conhecimento da equipe e das necessidades do grupo de atletas. A imprensa, ingênua e oportunamente, divulga amplamente essas intervenções irresponsáveis e descabidas sem o menor embasamento técnico e científico. Pior: fazem um alarde tão intenso que gera consequências perigosas nos centros científicos de pesquisa do comportamento humano. O prejuízo é de todos aqueles que, de alguma forma, trabalham pela correta promoção e prevenção de saúde mental – dentro ou fora do universo esportivo.

O papel e o local ocupado (designados culturalmente) por Hortência e Isabel no TUF são apenas mais um reflexo da superficialidade dos conceitos de atleta e ser humano no esporte. Por mais que tenham sido líderes em suas épocas, equipes e modalidades, é inconcebível – uma vez mais, que indivíduos sem o menor conhecimento técnico psicológico continuem a ocupar o espaço designado a psicólogos do esporte – nesse caso, sem aspas e com conhecimento da ciência.

Infelizmente os conselhos regionais e federal de Psicologia não se posicionam nesse – e em tantos outros casos em que a Psicologia do Esporte é banalizada – o que dificulta ainda mais a reversão desse panorama perigoso para o reconhecimento e valorização da profissão.

Atletas, diretores, supervisores e treinadores ainda acreditam que a Psicologia do Esporte pode ser exercida por indivíduos despreparados – com retórica circense e material pirotécnico de grande impacto. Os agentes desse processo, acreditem, não são poucos. A responsabilidade pela coerência e profissionalismo na atuação psicológica no esporte está nas mãos de todos nós, psicólogos, que não podemos aceitar – passivamente – que nosso espaço de atuação e pesquisa seja invadido, denegrido e banalizado dessa forma.[/p]

A Associação Paulista da Psicologia do Esporte se posiciona totalmente contrária a quaisquer formas de abordagem, publicidade e divulgação da Psicologia Esportiva sem fundamentação e embasamento científico. Não apenas diante do processo motivacional, mas em qualquer outra esfera dinâmica do comportamento – é preciso respeito, coerência, ética e conhecimento (além de formação acadêmica) para a utilização dos recursos psicológicos e emocionais do ser humano.

Por fim – e uma vez mais, lamentamos profundamente que a mídia mantenha o posicionamento da incorreta e banalizada divulgação dos meios para se trabalhar as demandas psicológicas, sociais, emocionais e culturais de atletas e grupos esportivos, além da exposição e utilização de ícones do esporte brasileiro para o exercício desse papel.

Fonte: Gazeta Esportiva