Texto Base: "O Terapeuta: tarefas básicas" (Yalon & Leszcz, 2006).

Em relação à Construção da Cultura do grupo de terapia, o psicólogo deve se preocupar em formar um grupo como um sistema social terapêutico, estabelecendo um código verbal de regras ou normas de comportamento, orientado para a interação do mesmo.

Processos na formação de cultura

Por isso, um dos cuidados que o terapeuta deve ter em um grupo deve ser relacionado com a questão da comunicação. Criar um sistema de comunicação em rede e não centrada no terapeuta. Quanto mais descentralizada e fluída for a comunicação em grupo, mais terapêutico o mesmo será. A construção de um grupo em rede reconhece o caráter complexo do processo terapêutico e do papel ativo de todos os seus participantes, valorizando os membros que existem e potencializando o processo terapêutico.

A comunicação é essencial para outro processo não menos importante, o da construção de normas: Estas são construídas a partir das expectativas dos membros em relação ao seu grupo e do direcionamento explícito e implícito do líder e dos membros mais influentes. Desta maneira, de forma voluntária ou involuntária, o líder sempre molda as normas do grupo, e deve estar ciente dessa função, de modo que para realizá-la o terapeuta o faz de duas maneiras: Baseando-se no peso de sua autoridade e experiência, e apresentando o raciocínio que existe por trás do modo de procedimento de construção de normas (que as mesmas são importantes para a coesão e sobrevivência do grupo), obtendo o apoio de todos.

Na tarefa de estabelecer regras e em todas as outras, os terapeutas variam amplamente em seus estilos de tratamentos para o grupo, embora todos, de uma maneira sutil ou não, cumprem suas tarefas por meio da técnica do [/n]reforço social[/n]. Isto se faz eficaz porque toda forma de psicoterapia é um processo de aprendizado.

Outra coisa que pode acontecer em um grupo que pode ser parte de um processo terapêutico é ter "participantes como modelo terapêutico", que possam ajudar aos demais através de seu exemplo. Em conformidade com a teoria da aprendizagem social de Bandura (1925-), ter membros que possam servir de modelos de imitação aos outros pode ser muito terapêutico para o grupo, seja através do líder, membros mais experientes ou coterapeutas. Estes membros podem ajudar na assimilação dos processos do grupo para os mais inexperientes ou que enfrentem maiores dificuldades. Ao servir de exemplo para o grupo, seja em autorrevelações ou em outros comportamentos, o terapeuta deve possuir um "envolvimento pessoal disciplinado" (p. 113), entendendo que, deve fazer parte do grupo, mas não esquecer a sua função de psicólogo. Desta maneira, o terapeuta servirá em todo o tempo como o principal modelo do grupo, algumas vezes em evidência ou fora dela.

Estas questões devem servir para que o grupo se torne responsável pelo seu próprio funcionamento, em um processo de automonitoramento. Com o passar do tempo e com o amadurecimento do grupo, o mesmo começará a velar pelas próprias regras que foram acordadas e naturalmente estabelecidas. Isso implica que o grupo entendeu, de uma maneira consciente ou inconsciente, a necessidade de sobrevivência do mesmo e a funcionalidade das regras para tal. Quanto mais autônomo e sensível o grupo for se tornando, mais ele terá essa habilidade.

Neste ponto do processo terapêutico, o grupo já deve ser capaz de velar pela sua autorrevelação, sem a qual nenhum avanço real pode ser notado, pois esta habilidade é essencial para a terapia. A autorrevelação deve ser sempre incentivada, mas esta deve ter o seu tempo exato para ocorrer: Autorrevelações precipitadas demais podem ser muito desastrosas para o grupo. Ninguém jamais deverá ser punido por se autorrevelar, pois este pode ser um evento extremamente doloroso e anti-terapêutico no grupo, por causar enormes sentimentos de desconfirmação e/ou rejeição. O terapeuta deve vigiar sempre para que os conteúdos de autorrevelações tratados nas sessões não sejam usados por membros do grupo para ataques contra os outros em forma de conflito. Este é um dos processos que mais fragiliza o grupo e deve ter total atenção do terapeuta.

Quando a cultura terapêutica está sendo construída?

Alguns fatores podem manifestar a eficácia da tentativa do psicólogo em construir uma cultura terapêutica para o grupo, dentre as quais: Quando o grupo é revelado como importante para seus membros, sendo que os relatos sobre isto são extremamente positivos para o conjunto. Quando os membros do grupo se entendem, percebem e começam a ajudar-se mutuamente e acima de tudo, quando o grupo entende-se como um local de apoio e confrontação saudável.

Os membros realizam este trabalho no grupo, mais na medida em que o mesmo for se desenvolvendo e evoluindo. Os primeiros encontros talvez possam ser muito focados no terapeuta e em seu trabalho, todavia na medida em que o grupo for trabalhando, os membros passam a assumir mais papéis e a se tornarem mais confiantes ao assumi-los.

Referência: Yalom, I. D. & Leszcz, M. (2006). Psicoterapia de Grupo: Teoria e Prática. Porto Alegre: Artmed. p. 107 – 123.

Fonte: Colunista Murillo Rodrigues