O que é?

Preocupações, preocupações, preocupações… Com o trabalho – será que vou conseguir dar conta deste projecto, será que tenho capacidades para o desempenho desta função, será que vou ser bem avaliado? Com as crianças – será que escolhi bem a escola, será que estou a ser bom educador, e se não lhes estou a dar uma alimentação correcta, e se crescem com problemas por eu ter pouco tempo? Com a relação a dois – e se ele(a) se desinteressou, e se eu falho outra vez, será que vou ser capaz de levar isto por diante? Com os pais – e se adoecem, será que estão bem, e se não aprovam a minha decisão? Com os outros – mas porque é que ele(a) não me liga há uma semana, será que disse alguma coisa errada, e porque é que eu estive tão calada(o) naquele jantar, será que me vão achar estúpido(a) por ter esta opinião? Com a vida rotineira do dia-a-dia – e se eu chego atrasado(a), tenho medo de não conseguir cumprir o prazo, o dinheiro pode não chegar, será que consigo vender a casa a tempo da mudança, e se as taxas sobem e não consigo cumprir a prestação, e se esta tosse é mais do que uma constipação? Preocupações, preocupações, preocupações. Insistentes, com tudo, recorrentes, excessivas. Você tenta expulsá-las, libertar-se, mas não consegue. E cansam-no(a), moem-lhe o corpo, arrasam-lhe o humor, interferem com o sono.

A Perturbação da Ansiedade Generalizada é assim: um entrelaçar de preocupações excessivas e recorrentes sobre os aspectos quotidianos, acompanhada de sintomatologia física. As queixas com que os nossos clientes surgem em consulta, curiosamente, não se prendem com a preocupação que lhes mina o bem-estar; talvez porque, na nossa cultura, ser um indivíduo preocupado é sinal (errado) de responsabilidade e maturidade. Assim, com a preocupação elevada à categoria de qualidade, não passa pela cabeça de muitas pessoas queixar-se disso. Do que se queixam, de facto, é de cansaço, de agitação nervosa e irritabilidade, de dores musculares, de perturbações do sono, de dificuldades de concentração e de uma indecisão permanente. De um mal-estar geral, para o qual não encontram justificação aparente. Na base desta perturbação encontra-se, fundamentalmente, uma dificuldade grande em gerir a incerteza própria da vida, o que se alia a alguns erros de raciocínio, no sentido em que se assumem pressupostos – sobre a adequação e o valor da preocupação, o nível de risco e de controlo envolvidos nas situações quotidianas, o reducionismo nas avaliações dos resultados possíveis, que, muitas vezes, não conhecem níveis intermédios – e se tendem a assumir desfechos negativos e catastróficos das situações.

É habitual, igualmente, encontrarem-se dificuldades nalgumas competências importantes para o bem-estar e que se prendem com o saber lidar com a vida do dia-a-dia; exemplos disso, são as dificuldades ao nível do processo de tomada de decisões (aliás, a indecisão e a angústia face à necessidade de tomar decisões são queixas frequentes das pessoas que sofrem da Perturbação da Ansiedade Generalizada) e o evitamento frequente de situações que originam ansiedade. Um sub-produto deste evitamento é a procrastinação: o adiamento sucessivo das tarefas que requerem ser executadas. O diagnóstico tem, obrigatoriamente, de ser feito por um psicólogo ou psiquiatra, porque é fácil confundir esta perturbação com outros quadros de ansiedade, ainda que seja muito frequente: 2% a 4% da população, afectando 2 a 3 vezes mais mulheres do que homens. A importância do diagnóstico é a adequação da forma de intervenção psicoterapêutica, muito específica para esta disfunção ansiosa.

A perturbação da ansiedade generalizada é progressiva: sem tratamento eficaz, vai piorando, especialmente em situações de stress acrescido. Com alguma frequência, a situação é complicada com a presença simultânea de outras perturbações igualmente do foro psicológico/psiquiátrico; as companhias indesejáveis mais frequentes são: perturbações depressivas, perturbação do pânico, perturbações pela utilização de substâncias, e situações globalmente médicas associadas a stress, como o síndrome do cólon irritável.

Fonte: Oficina de Psicologia