Estava aqui pensando com os meus botões sobre alguns possíveis diálogos entre autores antagônicos na psicologia do século XX, e me deparei com dois grandes clássicos que tem a minha admiração: O bielorrusso criador da Psicologia Histórico Cultural, Lev Seminovich Vigotski (1896 – 1934), e o suíço criador da Psicologia Analítica, Carl Gustav Jung (1875-1961).

O primeiro possui seus trabalhos baseados em uma epistemologia marxista, onde as suas obras estão focas nas questões socioculturais da mente. Já o segundo, dissidente da psicanálise freudiana, possui seus trabalhos voltados para a vida psíquica interna, o inconsciente humano, à herança de Freud.

Mas onde ambos os autores se encontram? Vigotski (2007) defendeu que a relação entre o homem e o mundo era mediada por signos, que são símbolos culturalmente construídos para fazer uma ponte entre as experiências subjetivas humanas e a realidade material. De modo que estes símbolos são usados como uma ponte para acessar significados historicamente e culturalmente definidos para guiar a vida em sociedade. Dessa forma, os signos são os instrumentos facilitadores do desenvolvimento humano, que colocam em contato as nossas estruturas psíquicas com as práticas sociais que nos desenvolvem.

Por sua vez, Jung (2008) afirmou que o inconsciente humano, lugar que dá vida à existência do ser, é guiado por símbolos. Estes símbolos são a forma como o inconsciente humano encontra para comunicar-se, expressar-se e "mover-se". São expressos através dos sonhos e processos analíticos. Jung também foi além, teorizando sobre o Inconsciente Coletivo (Jung, 1980), ao afirmá-lo como uma grande herança psicológica que permeia a humanidade como instância supraindividual que se incorpora em nossas vidas através de nossa socialização.

Se pensarmos bem sobre as teorizações dos autores, poderemos criar um ponto de diálogo entre as teorias, mesmo entendendo que elas partem de diferentes cosmovisões e epistemologias. Todavia, ambos os autores estão tratando de SEMIÓTICA, que é a ciência geral que estuda a formação dos símbolos. A diferença é que, o enfoque dos autores era totalmente diferente, pois enxergavam o fenômeno de pontos de vista diferentes: Vigotski atribuiu os símbolos a uma formação sociocultural, enquanto Jung os pensou sob um ponto de vista intrapsíquico ao afirmá-los como inconscientes.

Sob certo ponto de vista, assim como Vigotski (2007) afirma uma formação sociocultural para a mente, podemos afirmar que na possibilidade da existência de um inconsciente, o mesmo também seria construído socialmente, sob este ponto de vista teorizaram Santos e Leão (2012). Neste sentido, as construções simbólicas do inconsciente humano também seriam socioculturais, pois o sujeito deste inconsciente também está em um contexto social.

O que quero afirmar é que, todos os dois autores conseguiram encontrar a importância dos símbolos na vida humana, como maneira de expressão psicológica individual, mas antes disso, como sendo instâncias possuidoras de um papel crucial no desenvolvimento humano.


Referências

Jung, C. G. (1980). Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes.

Jung, C. G. (2008). O homem e seus símbolos. São Paulo: Nova Fronteira.

Santos, L. G. & Leão, I. B. (2012). O inconsciente sócio-histórico: notas sobre uma abordagem dialética na relação consciente-inconsciente. Em, Psicologia & Sociedade, 24(3), 638-647.

Vigotski, L. S. (2007). A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes.