A grande maioria dos estudantes, psicólogos, das universidades ainda insistem em pensar na separação entre a psicologia clínica e social. Separação esta que existe somente no papel se pararmos para pensar nas implicações que esta divisão pedagógica carrega. Uma das maiores psicólogas brasileiras, Sílvia Lane (1933-2006), já explicava no seu famoso texto "A Psicologia Social e uma nova definição de homem para a Psicologia, da década de 1980, algumas implicações deste pensamento dicotômico. Ela e uma série de outros autores como González Rey (2004) também alertavam para as implicações limitadoras deste tipo de pensamento.

Em primeiro lugar, podemos nos perguntar? O que é Psicologia Clínica e o que é Psicologia Social? Um dos primeiros mitos que devemos derrubar é que, estas não são práticas antagônicas ou concorrentes. Ora é mais do que aceito e compreendido que o homem é um ser social, e isto pode ser acessado por profissionais clínicos de qualquer abordagem. Convergem no ser humano, distintos níveis de organização psicológica, de configurações subjetivas, que são o que o fazem ser aquilo que ele é. O social está presente em nós como um conjunto de informações, símbolos e significados. Ele é a cultura que por nós foi produzida e que nos produziu.

O segundo mito a ser derrubado é que a Psicologia é uma Abordagem: Este é o mais ledo engano de muitos estudantes e até mesmo profissionais. Não existe uma psicologia social, mas sim Psicologias Sociais, que parte de diferentes pressupostos teóricos e metodológicos, de modo que, é possível a existência de uma Psicologia Social Psicanalítica, Psicologia Social Behavriosta, e Psicologia Social Histórico-Cultural (com suas vertentes), sendo esta última uma das mais conhecidas no Brasil, dentre outras. Ou seja, a Psicologia Social é uma concentração de conhecimentos, teorias, um campo do saber psicológico e não uma abordagem.

O terceiro mito a se derrubar é que a psicologia clínica é uma prática individual e a psicologia social uma prática coletiva; Ora, a Psicoterapia de Grupo já demonstrou desde a década de 1960 (Yalon & Lescz,2006) que a terapia é muito mais do que um momento de duas pessoas (terapeuta e cliente), sendo que existem várias vertentes que exemplificam isto. As terapia de casais e famílias também são excelentes exemplos da flexibilização dos modelos tradicionais de clínica. Muitas pessoas confundem Psicologia Comunitária com Psicologia Social e isto é relativamente compreensível, haja vista que a esta é uma das áreas onde a Psicologia Social se desenvolve e possui maior força.

O que devemos entender é que a Psicologia Social visa a explicação dos processos sociais que se expressam no ser humano, e isto pode ocorrer em qualquer campo do conhecimento psicológico, seja na Psicologia clínica, comunitária, da educação, jurídica, da religião, etc. Neste sentido é muito fácil entender a possibilidade de uma Psicologia Clínica Social. Devemos parar de pensar na Psicologia como um campo de saber fragmentado, cheio de escolinhas e trabalhar pela ligação dos conhecimentos que advém de seus diferentes campos de saber.

Referências

González Rey, F. L. (2004). O social na psicologia e a psicologia social. Petrópolis: Vozes.

Yalon, I. D. & Leszcz, M. (2006). Psicoterapia de Grupo: Teoria e Prática. Porto Alegre: Artmed.

Fonte: Colunista Murillo Rodrigues