Com base nas reflexões da epistemologia da Complexidade, com um olhar histórico e crítico ao desenvolvimento da psicologia na América latina, podemos perceber quais são os principais desafios para a América Latina:

1. Desfragmentação da ciência e profissão – A noção ideológica de paradigma, conforme abordamos foi um elemento danoso para o fortalecimento da classe e academia em toda a história da psicologia latinoamericana. A divisão em abordagens criou verdadeiras "igrejas científicas" apegadas a dogmas eternos e imutáveis, inflexibilizando a prática, promovendo sistemas próprios de linguagem e criando dissensões e provocações que transcendem às reflexões teóricas. O clima de "guerrilha acadêmica" gerada por escolhas conflitantes corrobora para o impedimento de os psicólogos de se reconhecerem enquanto classe na medida em que se reconhecem com os rótulos de "behaviorista", "psicanalista", "gestaltista" e não como "psicólogo". A Epistemologia da Complexidade, após ter apontado as dificuldades dos sistemas positivistas que cunharam o modelo paradigmático, se coloca como um modelo possível na superação da fragmentação teórica, pois reconhece na contradição mesma a possibilidade de novas construções teóricas e o valor de cada abordagem;

2. Desbravamento de novos campos de atuação e afirmação dos já existentes – A história da psicologia latinoamericana já nos forneceu exemplos de como o abandono do apego às teorias prontas pode fornecer novas possibilidades de mercado profissional e campos acadêmicos. Neste sentido, a Epistemologia da Complexidade reconhece a psicologia em constante movimento de construção, e neste movimento sempre propõe reflexões sobre novas formas de atuação diante da recursividade do mundo. O homem é um ser que tem a capacidade de se inventar e reinventar, construir e se reconstruir no movimento das sociedades, e diante das novas posições que este assume frente ao seu mundo é capaz de encontrar outras formas de posicionar-se, seja em âmbito pessoal ou profissional;

3. Inter, Multi e Transdiciplinaridade - Tais termos se fizeram muito presentes nas discussões e teorizações das construções em Psicologia Hospitalar, inicialmente. A constante integração e globalização da humanidade se faz presente desde a abertura de novos nichos de mercado até a produção de novas ferramentas para a humanidade. Saber dialogar com outras áreas do conhecimento é essencial para o desenvolvimento de novas teorias, pela convivência harmoniosa com os demais profissionais e demonstração da utilidade e aplicabilidade da profissão para a sociedade. A própria psicologia é multidisciplinar – As suas abordagens se constituem corpos científicos totalmente diferentes uns dos outros e, na medida em que se estabelecer um processo de diálogo entre as mesmas, surgirão novas compreensões da psicologia;

4. Integração das áreas internas do saber – Partindo da compreensão do homem como um todo (apesar de se expressar por partes), a psicologia necessita integrar os saberes psicológicos: Integrar a psicologia clínica à psicologia social, por exemplo, fornecerá ao psicólogo mais eficácia em seu trabalho, na medida em que consiga perceber o "social" que está presente no "individual" e vice-versa. A desintegração do saber psicológico é fruto do reducionismo herdado do positivismo, que fornece receitas gerais a fenômenos complexos;

5. Modernização da ciência e preservação do vínculo relacional diante da "digitalização" da humanidade – Uma das maiores características da psicologia, sendo a que, marcadamente, representa o maior cunho terapêutico, é o vínculo relacional fruto do contato. Neste sentido, um dos desafios da psicologia é modernizar e adequar-se a globalização sem perder de foco o vínculo relacional, que tem demonstrado através de todas as abordagens, ser em si um momento terapêutico.

6. Produção de Novas Zonas de Sentido(GONZÁLEZ REY, 1997) – A psicologia rompeu com suas dificuldades teóricas e apresentou saltos qualitativos na medida em que conseguiu superar seus obstáculos epistemológicos através de construções de teorias que fossem capazes de explicar com mais eficácia alguma área obscurecida da razão, como por exemplo, o conceito freudiano de inconsciente conseguiu explicar por uma construção teórica "perfeita" a forma como os seres humanos eram dominados por forças até então desconhecidas ou desprezadas pela "ciência".

Referência

González Rey, F. L. (1997). Epistemologia Cualitativa y Subjetividad. São Paulo: EDUC.

Fonte: Colunista Murillo Rodrigues