Os dez erros mais comuns do Calouro de Psicologia

Passo a elencar alguns fatores que podem apresentar-se como problemas, ou mesmo como erros, que parecem ser os "mais frequentes" entre os estudantes de Psicologia recém ingressados na faculdade:

Se achar o Sr. "psicólogo" na primeira semana de aula

Esse é muito comum, por isso foi eleito o primeiro da lista: Muitas vezes o estudante acaba de passar no vestibular, nem fez a matrícula na universidade, e já todo orgulhoso vai mudar o seu perfil nas Redes Sociais, na área educativa "Fulano cursa Psicologia na Universidade...". E já passa a ser chamado de "psicólogo da família" (normal, quem não fica alegre com um filho, neto ou sobrinho aprovado em um vestibular), recebendo uma grande dose de reforçamento social, mas... Na medida em que o estudante vai tomando mais confiança em seu status, e isso geralmente ocorre ainda no primeiro período, ele pode passar a ver-se em um local onde percebe que, mesmo com um saber ainda inexistente ou insipiente na ciência, as pessoas já esperam algo dele por sua posição social (o senso comum também tem lá os seus fetiches com nossa profissão) e passa a dar "pareceres" com a famosa frase: "Eu acho que é isso..."... Enfim, resumindo este ponto: O erro é afirmar uma posição social para afirmação de um poder ilusório que existe na imaginação popular a respeito de nossa profissão.

Achar que sabe mais do que o professor

Também muito comum, pode ocorrer que, o estudante, por não concordar com o professor, passa a questioná-lo sempre, com a intenção de tentar desacreditá-lo ou deixá-lo em "saia justa" perante a turma. Geralmente este tipo de postura é feita por uma pessoa que tem traços desafiadores à figuras de autoridade e pode estar assentado sobre raízes de orgulho ainda não muito bem resolvidas. Não há nada de errado em discordar de um professor, afinal de contas, isso é privilégio para quem tem cérebro pensante, mas na medida em que isto se torna uma orientação constante, pode-se acender uma luz de preocupação. É uma questão de lógica: Um estudante de graduação de primeiro ano possui (via de regras) bem menos bagagem intelectual do que seu professor, que passou pela mesma graduação (em geral, de 5 anos), por uma especialização latu sensu (1 ano e 6 meses), por um mestrado (2 anos), por um doutorado (4 anos) e se brincar, por um pós doutorado (2 anos). Não que o tempo de estudo faça alguém melhor do que outrem, mas que, as sandálias da humildade para reconhecer o processo de construção intelectual de um professor é um excelente caminho para a construção de um bom aluno, isto é!

"Escolher" a sua abordagem primeiro período

Muitos colegas encantam-se (ou sugestionam-se) facilmente nas primeiras semanas de aula. Alguns parecem sofrer um fascínio inexplicável pelo "Ratinho", cujo comportamento acabaram de aprender a modelar no Laboratório de Psicologia Experimental; Outros se apaixonam pela ideia de "inconsciente" ou "libido" na sua primeira aula de História (ou Matrizes) da Psicologia, ou por qualquer outro construto de qualquer teoria. Mas o fato é que, em um período, dois, três ou pelo menos por boa parte da graduação, é muito difícil afirmar-se fazer parte de determinada "escola de pensamento", sem conhecer a fundo tão escola e, pelo menos, superficialmente as outras. Escolhas justas devem ser feitas sob "pé de igualdade" ou pelo menos quando a "Descrição das contingências do comportamento de escolha estiverem bem especificadas"... Enfim, e acredito que posso afirmar isso com grande eco de concordância de meus pares da academia: Escolher uma abordagem tão cedo na carreira acadêmica é algo extremamente perigoso, simplesmente porque pode fortalecer o processo de ausência de reflexão crítica a respeito da própria ciência que se pratica, afinal, é preciso saber pelo menos algo sobre dois "produtos" para poder escolher entre eles.

Tentar usar o termo científico "novo" que aprendeu para explicar tudo

Essa é muito marcante, e engraçada na maioria das vezes: O estudante acaba de aprender o que significa "Reforçamento Positivo" e usa isso para tudo – "a professora me reforçou positivamente na prova", "essa tarefa não me reforça positivamente", e etc, etc... O que acontece é que, salvo exceções, termos científicos são feitos para serem usados em situações científicas e não para ser um "comportamento ecóico" na vida social. E isso serve para todas as abordagens, ou ramos do conhecimento, exemplo: Achar que uma criança tem "retardo mental" ou "atraso no desenvolvimento cognitivo" em uma avaliação somente porque errou algumas questões, justamente pelo estudante desconsiderar outras questões como uma instrução mal realizada, ou mesmo um histórico de pobre estimulação social da criança. Enfim, é preciso ter mais parcimônia no uso de determinados termos que foram muito "caros" ao conhecimento psicológico.

Interpretar teorias sem ter uma leitura completa

Este é o famoso achismo teórico que também recheia a academia: "Acho que Freud era um tarado" (por não ter entendido bem a teoria sobre a libido), ou "acho que Skinner era um simples condicionador de pombos" (sem ter lido uma linha sequer de seus trabalhos). Enfim, é "achar" coisa demais para quem "procurou de menos" – é preciso ler sobre um autor para poder criticá-lo. Não que você não possa emitir opiniões parciais sobre um tema, mas deve-se deixar claro o fato de que são apenas parciais para não haver a manutenção de preconceitos sobre teorias.

Tentar categorizar todas as pessoas em rótulos

Tentar agrupar todos os conhecidos em categorias que acabou de conhecer na universidade: Fulana é esquizofrênica, Ciclano é Superdotado, Beltrano éTDAH... A questão é que para ser psicólogo não é preciso colocar pessoas em rótulos, mas saber o que fazer com a pessoa por trás do rótulo. Justamente por ter um conhecimento muito parcial das teorias, os calouros podem correr o risco de colocar um "diagnóstico" em uma pessoa e, causar-lhes inúmeros prejuízos para com isto.

Agarrar-se aos seus preconceitos e visão de mundo para "combater" teorias

Por ser religioso, político, feminista, machista, capitalista, comunista, socialista, malabarista, pianista, vigarista, turista, ou outro "ista" que conste em qualquer lista. Pessoas que participam ou se reconhecem como parte ou membro de algum grupo, existe certa tendência natural à defesa de suas crenças e fé nos "primeiros impactos", afinal de conta, a Psicologia enquanto ciência envolve a necessidade de um pensamento muito flexível e pronto para abalar certezas – estas que são o estandarte de determinadas filosofias ou dogmas de distintos grupos sociais.

Fechar-se para novas idéias

Justamente por todos os pontos anteriores, fechar-se em suas teorias, focando-as de modo a não enxergar nenhuma outra, faz com que ocorra um empobrecimento intelectual diante da falta de busca e incentivo à pesquisas.

Fazer grupos sociais muito restritos

Essas são as famosas "panelinhas", e são muito comuns em todo agrupamento psicológico relativamente imatura e ainda não coeso. O processo de formação de subgrupos é relativamente comum em grupos iniciais – todavia, criar grupos com as "fronteiras" muito cristalizadas poderá fazer com que o estudante se perca em relações sociais que fortalecem suas feridas narcísicas. Estudantes de psicologia tem entre seus colegas um laboratório perfeito para aprenderem sobre questões interrelacionais.

Querer interpretar tudo e todos

E por último, mas para fechar com chave de ouro, faço referências a este item que encaixa-se perfeitamente ao nível 1 (até por suas semelhanças) como o fenômeno das pessoas consideradas chatas entre seu grupo de amigos simplesmente pelo fato de tentar interpretar cada espirro alheio como um ato "falho" ou coisa que o valha.

Enfim, esta lista pode compreender algo sobre a realidade de uma parte dos calouros, mas cabe-nos ressaltar que, cada um destes itens, que por mais figurativos que sejam, podem ser comuns na vida de umas pessoas. Na medida em que os próprios estudantes de psicologia passarem a ser dar conta dos processos psicológicos que os perpassam todos os dias, ficará mais fácil perceberem como superar os seus erros mais comuns.

Fonte: Rede Goiana de Psicologia