Os dados dos estudos (Hall & Hall, 2007; Martins, 2008; Moura, 2007; Pechorro, Poiares, & Vieira, 2008; Sanfelice& De Antoni, 2010, entre outros) que buscam caracterizar o perfil dos agressores sexuais infantis podem ser divididos principalmente em: identificação de características como sexo, idade e proximidade com a vítima; identificação de características comportamentais e da história de vida dos abusadores; e, identificação da percepção dos agressores sobre as vítimas, sobre sua própria sexualidade e sobre o ato de abuso. Neste breve texto serão citados os dados mais frequentemente encontrados nos estudos.

De acordo com dados brasileiros, a maioria dos abusos sexuais a crianças e adolescentes é cometida por homens (Moura, 2007), com idade entre 18 e 45 anos (Moura, 2007; Martins, 2008; Pechorro, Poiares, & Vieira, 2008), com vínculo biológico ou de responsabilidade com a vítima (Moura, 2007; Sanfelice & De Antoni, 2010; Martins, 2008). Quando o abusador é do sexo feminino, costumam ser jovens com cerca de 20 anos (Hall & Hall, 2007).

Quanto às características comportamentais,Vieira (2010) destaca que é comum encontrar fracas competências sociais; baixa auto-estima; sentimentos de inadequação; sentimento de vulnerabilidade; dificuldade nos relacionamentos interpessoais com outros adultos; sentimento de que são fisicamente pouco atrativos; problemas em termos de realização sexual, humilhação e solidão; limitações para identificar emoções alheias, principalmente raiva, medo e nojo. Além disso, as atividades sexuais consentidas ou abusivas são utilizadas como forma de lidar com situações de estresse (Cortoni & Marshall, 2001; Hall & Hall, 2007). Nesse sentido, Cortoni & Marshall (2001) constataram que a freqüência de fantasias sexuais era aumentada em situações de conflito, raiva, solidão e humilhação e essas fantasias eram frequentemente acompanhadas de masturbação.

Em relação às características psiquiátricas dos abusadores, a literatura aponta que pouco menos de 5% dos agressores sexuais são psicóticos e o único diagnóstico consistentemente relacionado aos agressores é o Transtorno de Personalidade Antissocial, embora com alguma freqüência possam ser encontrados transtornos de humor, de ansiedade e abuso de álcool (Fisher, Ward & Beech, 2006; Pechorro, Poiares, & Vieira, 2008).

A respeito da história de vida do abusador, os estudos apontam que ter sofrido abuso na infância aumenta a probabilidade de cometer abuso na idade adulta (Kear-Colwell & Boer, 2000; Hall & Hall, 2007; Jespersen, Lalumière & Seto, 2009 e Sanfelice & De Antoni, 2010). Porém, os números à esse respeito são bastante variáveis e Hall & Hall (2007) indicam que a diferença de porcentagem de abusadores que sofreram abuso chega a variar nos estudos de cerca de 10 a 90% entre estudados. Jespersen, Lalumière & Seto et al. (2009) destacam que a experiência sexual de abuso na infância torna mais provável a prática de agressão sexual na vida adulta. Porém, destacam que essa experiência pode ser parte de um contexto maior de contingências aversivas relacionados a problemas na vida adulta.

Sanfelice & De Antoni (2010) entrevistaram três homens condenados por atos de abuso sexual e verificaram que todos os participantes tinham sofrido processo de adoção e tinham sido vítimas de violência intrafamiliar, incluindo exploração do trabalho infantil. Quanto às experiências sexuais, os entrevistados relataram a primeira interação como inesperada, principalmente por ter envolvido alguém com idade muito superior à deles. Para dois dos entrevistados, a experiência foi entendida como abusiva.

Os estudos que buscam identificar a percepção dos abusadores sobre as vítimas, sobre sua própria sexualidade e sobre o ato de abuso, indicam que abusadores percebem as crianças como seres sexuais, que desejam e obtêm benefícios com o contato sexual com o adulto (Moura & Koller, 2008; Vieira, 2010; Sanfelice & De Antoni, 2010) e entendem como evidência disso o fato das crianças não resistirem ao abuso e manterem tal situação em segredo (Moura & Koller, 2008).

Identificar características comuns àqueles que praticam o abuso sexual contra crianças pode direcionar o olhar do pesquisador e do clínico para dados importantes que possam auxiliar na elaboração de tratamento para agressores, como programas que busquem o desenvolvimento de repertórios que possibilitem lidar com situações de estresse de maneira mais adequada, desenvolvimento de comportamentos que possibilitem interação social satisfatória com adultos, entre outros e estratégias de prevenção desses comportamentos, como psicoeducação para pais, crianças e adolescentes, auxiliando na identificação de características do agressor.

Fonte: Comporte-se: Psicologia Científica