Texto de Catarina Policarpo - Psicóloga Infantil

É recente a importância que se dá ao brincar na infância. Só na segunda metade do sec. XX, este tema começou a despertar interesse particularmente junto de investigadores e pediatras, que se aperceberam da importância do brincar no desenvolvimento social, emocional e cognitivo da criança.

Vygotsky refere-se à brincadeira como um modo de expressão e apropriação, pela criança, do mundo das relações, das atividades e dos papéis dos adultos. A capacidade para imaginar, fazer planos, apropriar-se de novos conhecimentos surge, nas crianças, através do brincar. A criança, por intermédio da brincadeira, das atividades lúdicas, atua, mesmo que simbolicamente, nas diferentes situações vividas pelo ser humano, reelaborando sentimentos, conhecimentos, significados e atitudes.

Ou seja, é através do brincar que a criança permite que o seu mundo imaginário se cruze com o seu mundo real, e esta realidade externa permite-lhe desenvolver competências para aprender a estar em família, a lidar com as suas frustrações, a imitar o outro (a representar, no fundo um papel de mãe, pai, animal, bombeiro, batman, etc) e a amadurecer no seu desenvolvimento social. Por exemplo, quando uma menina vê a sua mãe a embalar o irmão, ela irá reproduzir este padrão de comportamento nas suas brincadeiras, aprendendo assim competências enquanto futura mãe. Significa, pois, que não é propriamente o objeto que importa, mas a relação que a criança estabelece com ele, a experiência que cria, aquilo em que a sua imaginação o transforma.

Recordando a nossa infância, todos nós idealizamos o que gostaríamos de ser quando fossemos "grandes" (bombeiros, professores, médicos, bailarinas, etc). Era ao colocarmo-nos nestes papéis, que nos preparávamos para entrar no mundo dos adultos. Devemos permitir hoje que as nossas crianças tenham a mesma sorte, deixando-as conduzir as brincadeiras, ser espontâneas, criativas e, como pais, entrar no seu imaginário e atuar como personagens.

Vemos nos dias de hoje, os pais preocuparem-se muito se os filhos estudaram ou não, mas são raros os que se inquietam se os filhos brincam sem perceberem que nenhuma criança pode ser feliz sem brincar e não desenvolverá todo o seu potencial se a brincadeira não fizer parte da sua vida.
Os benefícios das brincadeiras são inesgotáveis. Elas precisam de desafios, que estimulem a fantasia, a imaginação, a curiosidade, a imitação, a atenção, a memória, a autoconfiança e a autonomia.

Para além de aprender a partilhar objetos, é também a brincar que a criança compreende a importância das regras, amplia o seu relacionamento social e o respeito por si mesma e pelo outro.
O brincar também permite que a criança ganhe certa distanciamento em relação ao que a faz sofrer, possibilitando-lhe explorar, reviver e elaborar situações que muitas vezes são difíceis de enfrentar.

Os pais devem oferecer à criança um ambiente de qualidade, que estimule as interações sociais entre as crianças, seus familiares, seus amigos, procurando que a sua casa respire também um ambiente enriquecedor da imaginação infantil, onde a criança tenha a oportunidade de atuar de forma autónoma e ativa.
E é neste propósito que os pais têm um papel fundamental no preparação dos espaços, na seleção e na definição dos brinquedos e contextos a serem explorados. Há pais que sentem que os seus filhos são calmos, sossegados, não pedem para brincar, não aborrecem, não são irrequietos e se portam muito bem. Pode isto significar que está tudo bem?…errado…é com estas crianças que os pais, família e educadores, se devem preocupar e estar atentos a pequenos sinais (solidão, isolamento, tristeza choro sem motivo aparente, silêncio, agressividade…). Uma criança que não consiga representar o seu sentir e exprimir-se pela brincadeira poderá estar a adoecer. Citando Winnicott (1975) "a brincadeira é universal e é própria da saúde: o brincar facilita o crescer, logo a saúde."

Se os vossos filhos se enquadrarem neste modelo ou tiverem dúvidas quanto a determinados comportamentos procurem ajuda especializada. Se assim não for, brinquem, brinquem muito com os vossos filhos: a jogar à bola, às casinhas, aos piratas, aos super-heróis, com os legos, façam pinturas e desenhos, joguem às escondidas, façam teatros, e outras brincadeiras que se lembrem. Na interacção do brincar, para além de motivar a criança e estimular a sua imaginação, sairam reforçados os laços afetivos, tornando a relação mais saudável!

Fonte: CRESCER