"Mas o dotô nem examina
Chamando o pai do lado
Lhe diz logo em surdina
Que é o mal é da idade
Que prá tal menina
Não tem um só remédio
Em toda medicina...

O Xote das Meninas, Luiz Gonzaga

De acordo com a última contagem, nós, os humanos, alcançamos o incrível número de 7 bilhões de seres sobre o planeta Terra. Dentre esses 7 bilhões há uma diversidade espetacular. Basta imaginarmos que cada qual é cada qual. Então, podemos dizer que há bilhões de subjetividades - isto é, jeitos de pensar, de sentir, de se comportar e se relacionar - inspirando e respirando juntos e ao mesmo tempo.

Mas, apesar da diversidade, é evidente que há também um esforço daqueles que detêm os poderes político, econômico, de mídia, militar etc. em transformar aqueles que discordam, desafinam e desafiam em seres que aceitam, concordam, copiam. Há um esforço para anular diferenças. Porque, muitas vezes, ser diferente não é visto como normal. Muitos esperam que as pessoas tenham um jeito e um comportamento padrão. Entre as ações de tornar "tudo igual", de pregar um "comportamento único" está a medicalização.

Medicalizar, muito além de recomendar remédios, é pôr a culpa na pessoa pelo jeito que ela é e, também, pelos problemas que ela vive. É tirar a responsabilidade do sistema político-social-econômico, além de enfraquecer as respostas coletivas. Cada indivíduo tem seu ritmo próprio para aprender, para vivenciar uma vitória, para elaborar uma perda. Ou seja, cada indivíduo tem um calendário interno para crescer como pessoa.

Além de cada um ter sua singularidade, nenhum ser humano é uma ilha. A gente age e reage conforme a circunstância e o contexto. Isso faz com que, para resolver muitos problemas e para superar dificuldades, a gente tenha que alargar o olhar e ver a floresta além das árvores.

Perguntas que não podem faltar:

A escola é Boa?
O emprego é digno?
O serviço de saúde é eficiente?
A família conversa?
A sociedade aceita as diferenças?

É bom lembrar que se o mundo faz a gente, a gente também faz o mundo. Dificuldades, conflitos, sofrimentos são parte de qualquer vida. Conversar sobre nossas dificuldades pode não resolver, mas ajuda a gente a ficar mais forte para entender e enfrentar a realidade. Já os inevitáveis conflitos podem ser solucionados com diálogos e negociações. Uma parte cede um pouquinho aqui, a outra cede um pouquinho ali e chega-se num caminho do meio.

Sofrer não é escolha, mas vai acontecer em vários momentos ou fases da vida de todo mundo. No entanto, coletivizar o sofrimento ajuda a torná-lo mais suportável e aponta caminhos para sua superação. Pois coletivizar significa pensar como o mundo em que vivemos e a vida que levamos nos fazem sofrer. E aí, é preciso também mudar o mundo e mexer na vida. Soluções coletivas fortalecem a comunidade, a vizinhança, a rede de pessoas.

Este texto é um trecho da cartilha " Medicalizar não é a solucação" do Conselho Regional de Psicologia - SP

Fonte: CRP SP