Pesquisas realizadas afirmam que os transtornos mentais causam pouco mais de 1% das mortes e são responsáveis por mais de 12% das incapacitações por doenças em geral e este número cresce para 25% em paises desenvolvidos. As pesquisas revelam também , que das 10 principais causas das incapacitações 5 são transtornos psiquiátricos, sendo a depressão responsável por 13%, o alcoolismo por 7,1 %, o transtorno obsessivo – compulsivo por 2,8 % , a esquizofrenia 4% e o transtorno bipolar por 3,3% ( LOUREIRO, 2000 ).

Um indivíduo com transtorno mental geralmente apresenta alterações nas suas habilidades, que podem interferir no ato de dirigir, aumentando a sua probabilidade em se envolver em acidentes de trânsito.

Segundo PAIM ( 1986 ) a atenção dos indivíduos é uma das habilidades que experimenta alterações em todos os transtornos mentais. Nos estados hipomaníacos o sujeito consegue manter sua atenção em cada objeto por apenas um breve espaço de tempo; na depressão há lentidão e dificuldade de concentrar a atenção e nas neuroses habitualmente, há exaustão da atenção e distraibilidade.

Mesmo sob tratamento medicamentoso o indivíduo com transtorno mental sofre alterações nas habilidades para conduzir veículos , pois os medicamentos muitas vezes, apresentam efeitos colaterais perigosos para o ato de dirigir, como por exemplo: sonolência, dificuldades de concentração, longos tempos de reação, irritabilidade , ansiedade, perturbações esporádicas da memória. Por está razão é de extrema importância que o paciente com transtorno mental e as pessoas responsáveis por este paciente busque o acompanhamento de um médico qualificado a fim de observar, monitorizar de perto o surgimento dos efeitos colaterais e fazer os ajustes para que os efeitos adversos sejam instituídos logo que possível.

Na avaliação psicológica para obtenção da permissão para dirigir , existe um consenso nas opiniões de profissionais e pesquisadores da área, sobre a necessidade de se investigar as características de personalidade do motorista acidentógeno, através de instrumentos psicológicos padronizados ( testes ) , procurando detectar os transtornos e sua propensão a acidentes.Quanto mais informação se tem sobre o motorista, como o conhecimento de traços de personalidade, mais possibilidades se terá de tomar providências para prevenir o alto índice de acidentes de trânsito.

Podemos observar uma carência de estudos e pesquisas, que aborde a questão das conseqüências que um indivíduo com transtornos mentais pode trazer para o trânsito. O artigo, "Transtorno de personalidade e propensão a acidentes de tráfego", publicado pela Associação Brasileira de Acidentes e Medicina de Tráfego ( ABRAMET, 1999 ), junto com alguns exemplos de comportamento citado por BARLOW (1999), abordam e fornecem uma visão voltada para o assunto.

Vamos a eles:

Personalidade Ansiosa ( Esquiva ) : situações agorafóbicas típicas incluem viajar de carro. A agorafobia leve é exemplificada pela pessoa que hesita em dirigir sozinha por longos percursos, mas consegue dirigir, por exemplo, ao trabalho. A agorafobia moderada é demonstrada pela pessoa que dirige dentro de um raio de pouco mais de 8 quilômetros de casa, mas somente acompanhada. O indivíduo pode ter medo de ficar tão ansioso enquanto está dirigindo e, nessa ocasião, de perder o controle da direção, sair da estrada e morrer, pois os sintomas de inquietação ou sensação de estar com os nervos à flor da pele, a dificuldade em concentrar-se ou sensações de "branco" na mente, irritabilidade, podem afetar o ato de dirigir , levando-o a propensão de acidentes.

Transtorno de Personalidade Obsessivo-compulsivo: pode ser o que provoca menor comprometimento, já que o perfeccionismo, atenção a detalhes e perseverança, podem ser traços bastante desejáveis, principalmente na esfera profissional; mas no trânsito estas pessoas são as vítimas naturais dos causadores de acidentes. Escrupulosas e cautelosas, seguem a lei rigorosamente, prejudicando e atrapalhando os apressados, "furadores de fila", velocistas e imprudentes de modo geral. Podem estar à frente de engavetamentos e em meio a colisões em semáforos ( já pára no amarelo... ), neblinas e em situações de fluxo alto e rápido, grandes marginais, por exemplo. Muitos obsessivo-compulsivos tem medo de que algo terrível aconteça, se eles não conseguirem executar seus rituais. Alguns temem em matar alguém enquanto dirigem, levando-o muitas vezes a frear repentinamente enquanto dirigem, por medo de ter atropelado um pedestre.

Personalidade Dissocial: anti-sociais e egoístas, não hesitam em tirar ou levar vantagens sobre quem quer que seja. Interessados em alguém ou alguma coisa, não medem as conseqüências para obter o que lhes interessam. Em "ação", não respeitam sinalização, locais de estacionamento, semáforos, conversões proibidas, pedestres. O acidente típico é a fuga desastrada quando perseguidos.

Transtorno da Personalidade com Instabilidade Emocional: tendem a ser impulsivos, violentos e imprevisíveis, dirigem conforme o momento emocional. Distraídos, calculam mal as distâncias e obstáculos; abusam dos veículos e pedestres. São pessoas perigosas no trânsito, porque súbita e abruptamente, fazem manobras arriscadas em velocidade impróprias e provocam pequenas e grandes colisões. Abusam, muitas vezes, de substâncias, sob a influência de álcool ou drogas conduzem de forma imprudentes , adotando muitas vezes um comportamento auto-destrutivo.

Personalidade Histriônica: apresentam baixos limiares de tolerância à tensão e à frustração. Sob pressão excessiva ( como no trânsito ) perdem o autocontrole, a coordenação motora e a orientação tempo-espacial. Como freqüentemente expressão a emoção com exageros inadequados, podem expressar sua raiva como fúria intensa, levando a situações de riscos, como aquelas em que o motorista, acompanhante, passageiro ou pedestre brigam entre si, dentro e fora dos veículos.

PRESA ( 2002 ) diz que não podemos aconselhar que todos os motoristas devam fazer psicoterapia, porém devemos alertar que a saúde mental do motorista deve ser cuidada no sentido de auto-conhecimento acerca de seus sentimentos de irritação, raiva, fúria, etc., diminuindo assim os elevados números de mortos e feridos no trânsito.

A formação de pesquisadores nas universidades é um dos caminhos mais rápido para a evolução e geração de conhecimento e prevenção dessa epidemia de acidentes no trânsito ; quando detectados estes indivíduos, antes da autorização para dirigir ou depois , deveriam ser encaminhados para uma orientação, para algum atendimento ( grupos de reeducação, acompanhamentos psicológicos ou outras alternativas criadas pelo órgão responsável em parceria com Universidades ). Isto, seria de grande importância para diminuição dos problemas de violência no trânsito.

Psicóloga Perita em Trânsito – PUC/PR Cassemira Maia Kopycki

Fonte: Psicologia e trânsito