Quando nos sentimos mais em baixo, tristes ou deprimidos/as, uma das tarefas mais difíceis de fazer é tomar decisões. Esta dificuldade é tão comum que, hoje em dia, já é um dos critérios indicados para o diagnóstico de depressão, no manual de diagnóstico DSM-IV-TR (APA, 2000). Para além disso, há investigadores/as e terapeutas que defendem que não só as pessoas deprimidas têm dificuldade em tomar decisões, como as decisões que tomam podem ser prejudiciais para eles/as próprios/as.

Analisando o estudo de Leykin, Roberts e DeRubeis (2011), o principal ingrediente para uma boa tomada de decisão é o pensamento racional. Para eles, este envolve a capacidade de compreender e avaliar alternativas de ação, fazer julgamentos imparciais dos factos e definir apropriadamente as consequências de cada possível decisão.

Dito desta forma, pode parecer muito simples tomar decisões, contudo existem dois factores que influenciam fortemente este processo: emoções fortes e expectativas negativas. Ou seja, na presença de emoções fortes, uma pessoa pode ver a sua tomada de decisão influenciada pelo que sente, em vez do que pensa. Ou, por outro lado, podem existir expectativas negativas, irrealistas, em relação às consequências das decisões que pode tomar – o que também irá influenciar este processo.

Ora, o pensamento de pessoas deprimidas é, muitas vezes, pessimista e negativo – o que significa que tem maior probabilidade de ter expectativas negativas para as consequências dos seus atos. E são pessoas que estão mais activadas emocionalmente, principalmente para emoções negativas (e.g. arrependimento, desilusão, tristeza, frustração).

Por exemplo, num período de depressão, uma pessoa pode recusar uma promoção no trabalho, uma vez que sente que não conseguirá suportar uma carga laboral mais pesada, ou que não tem as capacidades necessárias para o cargo, ou que irá inevitavelmente desiludir o/a seu/sua chefe. Ou seja, a pessoa tende a antecipar mais consequências e emoções negativas (tais como desilusão, frustração, fadiga ou esgotamento), do que positivas. Logo, toma decisões que são apenas baseadas em pensamentos negativos. O resultado é que as decisões tomadas em períodos de depressão podem não ser as mais corretas para a pessoa – a longo prazo.

Imaginando este exemplo, a pessoa em questão até pode ter as competências necessárias para o cargo e merecer a promoção. Contudo, ao não aceitar essa mudança de cargo não encara a situação: ou seja, não fica a saber se teria ou não competência. Fica apenas a viver nos "se’s": "se eu tivesse aceitado a promoção, teria falhado"; "se eu sentisse que conseguia assumir o cargo, eu tinha aceitado", etc. – nunca pensando que, se experimentasse, até poderia conseguir.

Por vezes, a nossa mente pode ser traiçoeira e levar-nos por caminhos que não são os mais desejáveis para nós, a longo prazo. Isto é especialmente verdade quando se fala de depressão, pois, como pudemos analisar, na depressão o nosso pensamento está influenciado por inúmeros vieses negativos. Deste modo, pode ser importante obter ajuda de amigos/as, familiares e/ou profissionais (e.g. psicólogo/a), que possam mostrar à pessoa alguns pensamentos alternativos, não tão influenciados negativamente, de modo a que a pessoa continue a tomar decisões acertadas para a sua vida.

Referencia: Leykin, Roberts, & DeRubeis (2011). Decision-Making and Depressive Symptomatology. Cognitive Therapy and Research, 35 (4), 333-341

Fonte: Oficina de Psicologia