Existem dois aspectos que nos levam a pensar na diferença existente entre o começo de um relacionamento e o que acontece um tempo depois:

Por um lado, existe o aspecto bioquímico do fenômeno que chamamos de se apaixonar. Ou seja, o corpo libera determinadas substâncias durante um certo tempo (entre 1 a 2 anos, em média) e depois as mesmas substâncias param de ser liberadas.

E, por outro lado, algo parecido acontece com a nossa psique. Em uma disciplina inicial da faculdade de psicologia, Processos Básicos, aprendi que é natural que nos acostumemos com um estímulo com o passar do tempo.

Por exemplo, alguém que mora perto de um lugar fétido como um lixão ou um matadouro, com o tempo, nem nota o cheiro forte que dali emana. Isso acontece com todos os outros sentidos. Passamos a não notar os barulhos do trânsito ou as cores do azulejo do banheiro.

Levando estes dois aspectos para o relacionamento, veremos que existe a tendência de haver acomodação, se o sentido desta palavra for de se criar o hábito de não olhar, não observar, não atentar para a outra pessoa.

Um outro detalhe que não deve ser desconsiderado é que, decorrido um período, muitas pessoas também passam a entender que não existe mais a necessidade de "conquistar", de modo que o relacionamento já é dado como algo existe e real, no qual não se precisa investir tanto quando no início.

É engraçado pois a ideia de conquistar implica um tipo de associação ligada à guerra e ao domínio. Afinal, muita gente pensa que é dono da outra pessoa com quem se relaciona e não é a toa que os ciúmes sejam um problema tão grande…

O que fazer para melhorar?

Nem toda dica de mudança de comportamento – se é que podemos dizer assim – é válida para todo mundo. Mas existem algumas direções que podem ser tomadas para melhorar o relacionamento para que não exista a sanfona. Quer dizer, há a habituação, a acomodação, talvez o desinteresse. Depois de brigas ou de distâncias, o relacionamento termina. Após o término, reaparece a saudade, a vontade de estar junto, o desejo. E se o casal reata, não muito depois, talvez nasça a mesma sensação de estar acostumado e, portanto, pouco esforço ou dedicação.

Bem, se o objetivo é construir um relacionamento sério e duradouro, é provável que algumas concepções tenham que ser alteradas.

Primeiro, a ideia de uma paixão avassaladora e constante não se sustenta no longo prazo. Vinícius de Morais, o poeta apaixonado e que casou 9 vezes dizia "que seja eterno enquanto dure". Era eterna a paixão, mas como mencionei acima, tem um prazo de duração relativamente curto. Por isso, acabava e ele, que estava em busca da paixão, terminava.

Na verdade, não existe um erro fundamental na perspectiva do Vinícius, mas se o objetivo for criar um relacionamento com uma única pessoa, este não deverá se basear apenas na paixão. Se a paixão for o centro, tenderá a acabar e a renascer no apaixonar por outra pessoa.

Portanto, para que o relacionamento ultrapasse a paixão, deverá se consolidar sob outras bases como o companheirismo, a afinidade, objetivos em comum.

Segundo, a ideia de posse deve ser rechaçada. A linguagem infelizmente nos ajuda a confundir. Dizemos "minha namorada / meu namorado", "meu marido / minha esposa" e o possessivo indica uma posse… como se a outra pessoa não tivesse autonomia e fosse um objeto que detemos.

Digo que a ideia de posse deve ser deixada de lado porque – além de ajudar a diminuir o ciúme – a ausência de posse permite um outro tipo de relacionamento. A outra pessoa não é alguém que se conquistou (de uma vez por todas). A outra pessoa é, em todos os sentidos, uma outra pessoa!

E, por isso, é alguém com quem devemos compartilhar bons momentos. Além do que, sendo uma outra pessoa, terá necessidades e desejos próprios e alheios aos nossos. O que nos leva ao terceiro ponto.

A necessidade de se ter mais atenção

Com o tempo, nos acostumarmos com os estímulos (o que vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos, degustamos)? Isso significa, na verdade:

– não vemos;

– não ouvimos;

– não cheiramos;

– não tocamos;

– não degustamos.

Pelo menos, não conscientemente, não atentamente. E a ausência da atenção é muito prejudicial a qualquer relação. Assim como não nos sentimos bem quando alguém finge que está nos ouvindo mas não está… a outra pessoa certamente não vai gostar.

Portanto, voltar a atenção para o momento presente e para a pessoa com a qual estamos nos relacionando proporciona uma melhora sensível e imediata.

Um fator fundamental, para concluirmos, é entender o próprio desejo. Para simplificar, podemos dizer que o desejo se relaciona com o que queremos (e o que queremos mas não sabemos que queremos, ou seja, o que ainda é inconsciente).

No final das contas, a decisão de começar, terminar e/ou recomeçar um relacionamento vai depender do desejo. Ao menos, do desejo de uma das partes.

O problema é que o desejo é traiçoeiro, ou seja, ele pode aparecer na ausência: que não é nada mais do que querer o que não se tem. Por outro lado, quando há a vontade de reatar quando há a saudade, é importante investigar se não se trata de posse.

Portanto, não existe uma resposta pronta e válida para todos. No final de cada dia, temos que nos perguntar: "o que eu quero?" e lidar com as consequências do próprio desejo – e, talvez, com o sofrimento relacionado.

Fonte: Psicologia MSN