Parece existir no imaginário coletivo do brasileiro uma ideia de que o psicólogo é uma espécie de detentor maior do conhecimento a respeito do ser humano, e que por seus anos de estudo está apto para falar a respeito de qualquer tema: Sinto frustrá-los, mas mesmo falando por mim, sinto plena segurança em generalizar o fato de que somos cientistas, e que por isto, devemos falar com base em dados, e não no "achismo" ou pelo senso comum. E por isso tenho que dizer que, por mais ampla que seja uma graduação em psicologia (que leva 5 anos), um mestrado (que leva em média 2 anos) e um doutorado (4 anos em média), nenhum psicólogo pode falar com base no que acha, simplesmente porque o ser humano (e seu comportamento) é amplo demais para ser restrito ou totalmente dominado por um único profissional em tão curto período de tempo. Por isso, todo o conhecimento que se julgue como científico deve advir de qualquer tipo de método, que é um conjunto de procedimentos adotados por cientistas para chegar à validade de determinado conhecimento.

Quando me refiro à questão do método, quero dizer que devemos nos apoiar em estudos e pesquisas sobre determinado objeto de estudo para falarmos sobre ele. E por aqui, cabe-nos desmistificar um pouco a questão de pesquisa científica ou estudos científicos, pois muita gente imagina o cientista em um laboratório de jaleco, manipulando máquinas e substâncias, sendo que ao falar de ser humano, estamos falando de um ser que em essência é social, ou seja, é um indivíduo que se encontra em um contexto cultural, de onde recebeu formação (e que também lhe dá formação) e de onde vive e atua. Por isso, ao se tratar de pesquisa sobre seres humanos, ou sobre aspectos psicológicos do mesmo, não estamos dizendo necessariamente que tenhamos que enfiá-lo em um laboratório e observá-lo com uma "coisa", afinal existem processos psicológicos que só acontecem no meio social, e este é o caso da "FOFOCA".

Ao falar sobre fofoca, estamos falando sobre um "Objeto de Estudo", que é uma parte da realidade sobre a qual o pesquisador se foca para extrair ou construir determinado conhecimento. Ora, a "FOFOCA" é somente um dos infinitos objetos de estudos que pode haver na psicologia, pois em se tratando de comportamento humano e suas consequências, qualquer um é válido, e por isso cito exemplo do que pode ser também objeto de estudo: O conceito de "mente" pode ser objeto de estudo; As "emoções" podem ser objeto de estudo de um pesquisador; O "pensamento" pode ser objeto de estudo; O "inconsciente" pode ser objeto de estudo; A "sexualidade"... e assim por diante. Quando faço esta introdução, o que quero mostrar é que nem tudo é tão simples como parece, e que a psicologia não é um mero apanhado de achismos que são proferidos por alguém com diploma.

Um psicólogo, por mais bem formado que seja nunca conseguirá estudar sozinho todos os "objetos de estudo", pois os mesmos são inesgotáveis, sendo que por isto existe uma comunidade científica ao redor do mundo que comunica através de seus trabalhos as suas descobertas. Falo tudo isto porque, a "fofoca" por mais que seja um fenômeno cotidiano e que afete muita gente, não é um dos objetos de estudos mais estudados pela Psicologia: Uma breve busca em bases de dados científicas do Brasil (sites que reúnem informações sobre pesquisas em determinada região ou por assuntos) para a escrita deste ensaio revelou que, foram produzidos somente 2 trabalhos científicos relacionados ao tema, sendo que somente um deles possui a "fofoca" como objeto de estudo (Gouveia, Sousa, Albuquerque-Souza, Sá-Serafim & Gonçalves, 2011), o que me levará a adotar tal trabalho como base para algumas definições conceituais sobre o tema, e também a apropriar-me de conceitos de teóricos da filosofia e da comunicação para tratar sobre este tema importante.

Algumas definições básicas

A dificuldade de encontrar pesquisas anteriores em Psicologia sobre o tema no Brasil não se apresentou como um problema que impossibilitaria a redação deste texto, pois o trabalho de Gouveia e colaboradores (2011), citado anteriormente, nos fornece definições muito válidas sobre o tema. Digo isto porque antes de falarmos da pessoa fofoqueira, é preciso falar sobre a fofoca.

Segundo os autores "a fofoca é a maneira de obter informações sobre os outros que pode orientar sobre como a pessoa pode conduzir sua própria vida ou garantir maior autoestima por meio de comparação com os demais" (Gouveia e colaboradores, 2011, p. 618), e ainda segundo os mesmos, é uma forma de comunicação importante para a vida em sociedade.

Ainda se tratando da fofoca, há que se desmistificar que a mesma é somente maligna ou nociva: Estudos estadunidenses (no exterior sim, possui-se maior base de dados sobre temas como "fofoca") realizados na Universidade de Califórnia, revelaram que a fofoca é uma ferramenta social muito útil para a promoção de uma rede de cooperação entre indivíduos com o objetivo de deter comportamentos antissociais (Feinberg, Willer, Stellar & Keltner, 2012). Tal pensamento nos ajuda a perceber que o ato de fofocar é muito mais complexo do que simplesmente uma "conversa fiada" ou com o objetivo de denegrir a imagem de alguém, mas é um fenômeno comunicacional de grande importância para a vida na sociedade.

Mas a fofoca não acontece por si só! Sobre o fofoqueiro e utilidade da fofoca

Parafraseando Jesus Cristo, "que atire a primeira pedra quem nunca cometeu este mal". Ora, uma vez ou outra na vida, todos já devemos ter participado de uma fofoca, como autor ou como ouvinte, e para isto acredito não ser necessário um estudo científico para generalizar: É parte da cultura brasileira, ocidental, oriental, mundial, espacial (sim, até os cosmonautas nas estações espaciais já devem ter fofocado na extratosfera), justamente pelo fato de que a fofoca possui algum tipo de utilidade. E o interessante aqui seria discutir? Qual tipo de utilidade da fofoca na vida do fofoqueiro?

Neste sentido, o que posso afirmar é algo que pode ser tido como uma máxima: "Cada caso é um caso"! Ou seja, por mais que o fenômeno seja o mesmo, ele pode ter como sua base diferentes tipos de agentes motivadores.

Um dos motivos mais comuns para a fofoca pode ser a necessidade de aliviar a ansiedade, tanto para escutar, tanto para falar sobre um fato, pois as dinâmicas comunicativas possuem um grande poder de alívio de tensão psíquica, simplesmente pelo fato de que a fala é uma das expressões mais genuínas do psiquismo humano. Neste sentido, tanto falar, quanto escutar alguma informação "x" ou "y" pode ser uma maneira de aliviar a ansiedade.

Outro possível motivo para que exista um fofoqueiro, seja ele ativo (o que dissemina a fofoca falando-a) ou passivo (escutando-a), é que a fofoca é uma das maneiras mais eficientes para a formação de sub-grupos dentro de grupos maiores: Algumas pessoas podem manipular informações, como fonte de poder, para manipular pessoas ao redor da criação de frações dentro de um grupo por interesses diversos. Ou seja, a fofoca, neste caso, se mostra como uma importante fonte de manipulação de poder dentro de grupos.

Seguindo a ideia do parágrafo anterior, também poderia citar a utilidade da fofoca para transformar o "fofoqueiro" como pessoa "referência" dentro de um grupo: Neste caso, o fofoqueiro se coloca como aquele que "sabe de quase tudo sobre quase todos" e passa a ser um "conselheiro social" para pessoas mais inseguras em suas ações dentro do grupo.

Existem ainda vários outros motivos, como usar a fofoca como uma maneira para lidar com a inveja não tratada, sendo que isto é, na enorme maioria das vezes, parte de um processo inconsciente que as pessoas operam para lidarem com os sentimentos nocivos que são nutridos pela inveja, pois, via de regras, não existem outras maneiras socialmente aceitas para que os indivíduos possam lidar com a "inveja", ao passo que, para tratarem o desconforto causado em seu psiquismo por conta deste sentimentos, precisam eleger várias ferramentas, sendo que a fofoca parece ser uma delas.

Outro motivo para que uma pessoa se torne um fofoqueiro, pode ser a necessidade de denegrir a imagem de um concorrente. Esta parece ser uma das maiores artimanhas psicológicas que as pessoas passam, até mesmo de maneira inconsciente, pois a fofoca pode fornecer um "crivo" para comparação entre duas pessoas. Neste sentido, o fofoqueiro pode ser uma pessoa que, inconscientemente tenta competir com outra pessoa que ele julga, mesmo que inconscientemente, que seja seu concorrente.

A fofoca também pode servir ao fofoqueiro como maneira inconsciente de afirmação de sua personalidade, como uma maneira que a pessoa possui para lidar com suas rejeições primárias (aquele tipo de sentimento que uma pessoa possui por rejeições afetivas que sofreu tanto em idades bem iniciais da vida, ou em outras fases, mas que marcaram a sua maneira de perceber, sentir e agir no mundo).

A fofoca também tem grande utilidade no mundo do trabalho, e é por isso que ela pode ocorrer (e geralmente ocorre) com grande frequência nesta área. A fofoca pode servir para tentar antecipar, prevenir ou remediar qualquer atitude que coloque em risco a estabilidade e coesão de um grupo. Neste sentido, pode ser um poderoso mecanismo de defesa contra elementos que ameacem a segurança de determinados grupos ou indivíduos isolados. Geralmente as fofocas aparecem antes das demissões, avaliações, problemas de relacionamento, etc, porque está ligada à uma rede "informal" de comunicação que muitas vezes é mais eficaz do que os canais oficiais de informação de uma organização.

Estes são vários exemplos de, qual a razão da existência da vida da fofoca na vida de um fofoqueiro.

E como lidar com a fofoca/fofoqueiro?

Por mais que não existam receitas gerais para casos específicos, acredito que existem princípios universais que podem ser adotados diante de questões deste tipo. Por exemplo, a fofoca só tem poder na medida em que existe diante de uma rede de informações, ou seja, ela existe dentro de um encadeamento de boatos (o antigo exemplo da brincadeira do "telefone sem fio" pode ser usado para ilustrar este fato), sendo que ela pode começar contendo informações de conteúdo legítimo e ir se deformando na medida em que correr pelos demais "elos" da cadeia de informação. Sendo assim, um passo para lidar com fofoqueiros seria quebrar esta corrente, não passando-a adiante: Muitas pessoas reclamam quando são alvo de fofocas, mas parecem incrivelmente tentadas a espalhar fofocas das quais não são protagonistas. Neste sentido, a melhor maneira de se lidar com uma fofoca/fofoqueiro é quebrando o elo da corrente de informações, não repassando os conteúdos para frente.

Demarque sua posição: Mostre que você não é uma pessoa que está aberta para ser um mero transmissor ou receptor de fofocas. Isso pode até não te deixar impermeável para receber fofocas, mas irá te dar total legitimidade para condenar as que chegarem ao seu conhecimento.

Outro aspecto que pode te ajudar a lidar com as pessoas fofoqueiras é ser transparente em relação à sua vida. Isso não se trata de torná-la um livro aberto, mas fazer o mundo entender que a sua vida não é motivo para nenhum tipo de escrutínio ou segredo para ninguém. Pense no fato de que, somente as pessoas que te conhecem é que podem dar seu nome à qualquer conteúdo; como assim?! Simples, uma pessoa que mora no Japão e que nunca te viu não pode falar nada de você, assim como pessoas que não encontrarem motivos ou aparência de maldade em nenhuma de suas atitudes poderão te usar como boneco de escárnio público.

E acima de tudo, ser discreto é algo que pode ajudar bastante a tratar com fofoqueiros: A discrição parece ser uma virtude em falta no atual nível de digitalização da vida social, na medida em que qualquer ato/fato serve de vitrine para afirmação de vida na internet através das Redes Sociais de Relacionamento. Todavia, a discrição é algo que pode ajudar a lidar com pessoas que parecem ter a fofoca como esporte.

E por último, eu poderia dizer que é necessário fortalecer a autoestima das pessoas para que elas precisem se ocupar cada vez menos das vidas alheias e passarem a ocupar-se cada vez mais com a utilidade da própria vida. Me parece que existe uma séria relação entre autoestima e fofoca, como duas grandezas inversamente proporcionais, pois quanto mais fortalecida for a autoestima de uma pessoa, menos ela parece ser afetada por fofocas em relação ao seu nome, e muito menos ainda parece sentir a necessidade de ocupar-se dela. Neste sentido...

...o fofoqueiro "tóxico"...

...parece ser aquela pessoa que precisa de um choque de autoestima, por mais que ele não perceba. Pode ser uma pessoa carregada de necessidades sociais e emocionais ainda não compreendidas. Ora, a fofoca é algo relativamente natural na vida humana, mas deixa de sê-lo na medida em que passa a afetar de maneira considerável e negativa a vida do indivíduo e daqueles que vivem ao seu redor.

Há também que se ter o cuidado de não fazer duas coisas: Vilanizar o fofoqueiro, transformando-o em um "demônio sedento de fofoca" e; Vitimizar o fofoqueiro, de modo a tratá-lo como um coitado. Há que se entender a pessoa que possui grande necessidade de fofocar como uma pessoa comum que possui poder de escolher entre as dinâmicas relacionais que estão postas mas que, no atual momento da vida, por falta de educação emocional (no sentido de não ter recebido um "treinamento adequado para lidar com esta questão") ou mesmo por ser entender que esta é a maneira mais fácil de lidar com a situação, se encontra em uma dinâmica de comunicações paralelas.

E se trata de entender isto, o ser humano é cheio de limitações e carências, e é em suas imperfeições que ele se aperfeiçoa no caminho de sua existência: Fofoqueiro hoje, talvez não amanhã... não se sabe! O homem é um ser de mudanças, e também, um ser de escolhas.

Referências

Feinberg, M., Willer, R., Stellar, J., & Keltner, D. (2012). The Virtues of Gossip: Reputational Information Sharing as Prosocial Behavior. Journal of Personality and Social Psychology, 102(5), 1015-1030.

Gouveia, V. V., Sousa, D. M. F., Albuquerque-Souza, A. X., Sá-Serafim, R. C. N., & Gonçalves, C. M. T. S. (2011). Escala de Atitude Frente à Fofoca: Evidências de Validade e Confiabilidade. Psicologia: Ciência e Profissão, 31(3), 616-627.

Fonte: Rede Goiana de Psicologia