Na terapia de casal, frequentemente notamos discussões baseadas na falta de compreensão do ponto de vista do outro. É o que descrevemos, no cotidiano, como incompatibilidade de gênios. Neste texto, falaremos sobre este tema, em especial, sobre a questão: "há que haver uma compatibilidade total das duas personalidades para que o relacionamento dê certo?"

Gênio e personalidade

Nos contos de fada, que contam muitas verdades com suas narrativas fantásticas, encontramos a figura do gênio. Em outras culturas, a palavra para gênio é djin ou jina… se a nossa ortografia fosse fonética, poderíamos escrever – por que não? – jênio. Enfim, estas figuras, como o gênio da lâmpada que vem realizar um desejo ou vontade, são utilizadas nesta expressão popular incompatibilidade de gênios.

Outro uso para gênio, como sabemos, são os chamados gênios da humanidade. Mozart, Beethoven, Platão, Aristóteles e tantos e tantos outros. A ideia é de uma classe de pessoas, especiais, digamos, que realizam prodígios dignos de um djin, de um jiva ou jina.

No geral, não nos consideramos gênios neste sentido, de termos talentos extraordinários. Porém, afiramos que o nosso gênio "não bateu com o da outra pessoa" ou justificamos o término de uma relação como se a razão fundamental fosse, portanto, a incompatibilidade entre uma genialidade e outra.

Na psicologia, restringimos o termo genialidade ao conceito de superdotação. Uma pessoa superdotada é aquela toda de um super… de um a mais, em qualquer ramo de inteligência. O sentido de não ser compatível é expresso pelo termo "diferenças de personalidade". Em outras palavras, não falamos em gênio e sim em personalidade.

Independente da palavra, há algo muito interessante nestes termos. Como sabemos, o termo personalidade vem da palavra grega persona, que significa máscara. Máscara como as dos atores do teatro grego. A etimologia de persona é per son, pelo som. A persona, a máscara, é a vestimenta pela qual o som sai.

Então, para facilitar o entendimento, podemos pensar na personalidade, concretamente, como uma máscara quase que permanente. (O DSM-5, o Manual de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana define um transtorno de personalidade como um padrão persistente de experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo, é difuso e inflexível, começa na adolescência ou no início da fase adulta, é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento ou prejuízo. Ou seja, a chave aqui é a palavra estabilidade).

Assim, uma pessoa tem um tipo de personalidade. Imaginemos: ela tem uma máscara estável e permanente através da qual se expressa, através da qual faz o som, a sua voz íntima e interna, sair. Porém, esta personalidade é particular. A outra pessoa não terá uma personalidade idêntica. Cada pessoa terá, portanto, um tipo de personalidade e não é errado dizer que algumas são mais parecidas com as outras.

Incompatibilidade de personalidade ou gênios

Isto posto, surge a pergunta: "há que haver uma compatibilidade total das duas personalidades para que o relacionamento dê certo?" Mais especificamente: em um relacionamento amoroso é imprescindível que as duas pessoas sejam muito parecidas, idênticas, iguais, pensem e ajam da mesma forma?

Evidente que não. Afinal, se as duas pessoas tivessem que ter uma personalidade idêntica todo e qualquer relacionamento amoroso seria como a história do Narciso e apenas nos apaixonaríamos pela nossa imagem no espelho. E, no fundo, não é difícil de ver que a paixão surge não pela igualdade, mas pela diferença. Buscamos na outra pessoa o que nos falta, o que não temos e isso é exatamente a definição de desejo.

Contudo, como se trata do ser humano, nada é muito simples, sim ou não. A pegadinha é que, embora as personalidades não sejam idênticas, elas tem que ter pontos de contato: interesses em comum, ideias afins, sonhos e objetivos alinhados ou a relação tenderá a não ser longa devido às diferenças.

É como um jogo de diferenças e semelhanças. Não é totalmente igual e nem pode ser totalmente diferente. No meio termo disso, como na différence de Derrida. De toda forma, nesse jogo de permanência e mudança que é o movimento ao longo do tempo de uma personalidade, e de diferenças e semelhanças, o que une, o torna comum é a comunicação.

Erros de comunicação

Quase todos nós compartilhamos de um erro fundamental. É o erro de que a outra pessoa pensa como nós pensamos. Ou diz, fala ou não fala, deseja ou teme como nós faríamos se estivéssemos em seu lugar. Porque, por mais que uma pessoa tenha empatia e afinidade, o seu jeito de ver as coisas, o mundo e a si mesma não será igual ao nosso jeito de ver.

Então, partimos de lugares diferentes. Partimos de pressupostos e pressuposições distintas. Razão pela qual nunca é demais dizer que o problema número 1 em qualquer relacionamento é a falta de comunicação ou a comunicação equivocada.

Para refletir: "Você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou…" (Lacan)

Conclusão

A palavra relacionamento vem de relação, do latim relatus, referre, que significava na língua dos nossos antepassados: "levar consigo, apresentar, relacionar". Ao contrário do que poderíamos imaginar o prefixo re não possui, neste caso, nenhuma associação com de novo ou novamente. Re+ é aqui um intesificativo para ferre, "portar, levar".

Assim, relacionamento é o que você porta consigo, o que você leva junto contigo. Para expressar de uma maneira mais atual, é o que você compartilha na linha do tempo de sua vida, o que você alimenta (feed) com o que você está pensando agora.

Podemos supor, como princípio, que nenhum gênio é totalmente compatível com outro gênio. A arte de conseguir criar e manter um relacionamento harmônico e feliz é criar um espaço comum através da comunicação.

Fonte: Psicólogos Berrini

Imagem: Extraída do Google Imagens.