O surgimento da concepção de infância estabeleceu um novo modo de conceber e lidar com a criança, compreendendo esta como um ser específico com características próprias, não sendo apenas um adulto em miniatura. Assim, a peculiaridade da infância estabelece diferentes modos de atuação para os profissionais que lidam com crianças. No que se refere à clínica com crianças, Costa e Dias (2005) apontam como grande desafio a condução do processo de forma que haja a compreensão e inserção no universo infantil repleto de fantasia e imaginação.

Para os psicólogos que atuam com crianças é importante que haja o interesse e o gosto pelo mundo das crianças, o gosto pele brincar, pois o processo envolve sentar no chão, estimular a criatividade, trabalhar com tinta e argila, contar histórias, enfim atuar na realidade baseada da criança. Essa experiência faz com que a criança do terapeuta seja rememorada e reatualizada, por isso é imprescindível que este esteja bem com a sua criança.

Costa e Dias (2005, p. 45) enfatizam que o terapeuta infantil deve "[...] sair do mundo adulto e intelectualizado para alcançar o mundo lúdico da criança, com todo o seu simbolismo". Para isso é necessário abandonar o vocabulário rebuscado e formal demais, mas sem no entanto infantilizar o discurso, eliminando assim, a distância provocada até mesmo pela diferença entre o porte físico do terapeuta-cliente.

Outro ponto importante a se pensar é a participação e o envolvimento da família no processo terapêutico da criança. Se a família, isto é, a rede social atua como mantenedora do sintoma infantil é imprescindível um trabalho em conjunto, possibilitando que os familiares sejam "[...] atores ativos de sua história e não apenas a platéia que assistirá e receberá todas as informações a respeito de como recuperar as circunstâncias que estão produzindo o sintoma" (Costa e Dias, 2005, p.47). Dessa forma, o psicoterapeuta deve ficar atento as reações da família, aos ganhos, perdas, medos, ansiedades, ações, sintomas e aborrecimentos que podem dificultar o processo terapêutico.

Um ponto da clínica infantil que merece destaque é a resistência dos pais, que pode ser decorrente de um medo em ser culpabilizado pelo sofrimento do filho. Diante disso, é necessário que o terapeuta já trabalhe essa questão com os pais desde o primeiro contato, deixando claro que o psicólogo não será acusador e sim aliado no tratamento da criança, assim, quebrando a barreira e possibilitando a colaboração destes para o processo.

Diferentemente da terapia com adultos que substancialmente se dá através da fala, a terapia infantil ocorre mediante a linguagem lúdica, ou seja, é na brincadeira que a criança se revela. Dessa forma, o psicoterapeuta deve sempre estar atualizado com o mundo infantil, ou seja, saber sobre brincadeiras, jogos, gírias utilizadas (linguagem), literatura infantil, programas de TV, personagens da mídia, músicas, entre outros. Ressalta-se também a necessidade do profissional conhecer o universo social em que a criança está inserida, assim, por muitas vezes o contato com a escola, professores ou outras instituições que a criança frequenta é imprescindível.

Referências

COSTA, M. I. M.; DIAS, C. M. S. B. A prática da psicoterapia infantil na visão de terapeutas nas seguintes abordagens: psicodrama, gestalt terapia e centrada na pessoa. Estudos de Psicologia, Campinas, 22(1), p. 43-51, jan/mar 2005.